sábado, julho 31, 2010

Sabadão

Dando tratos à bola

Sidney Borges
Luz é onda eletromagnética, embora em certas situações comporte-se como partícula. Quando o dia está ensolarado como hoje tenho a impressão de que é um fluido, como são os gases e a água. Um fluido constituído de fótons que quando batem nos elétrons interferem nas medições. Onde está? Ora, agora mesmo estava aqui! Certamente deve estar por perto. Como são fugidios esses elétrons. Deve ser por causa da carga negativa.

Caminhando sem sentir o vento vi um caminhão bater numa bola de futebol que desembestou a voar quase atravessando o quarteirão. O caminhão não estava a mais de 30 km/h. Supondo que no instante da colisão a bola estivesse com velocidade nula e levando em conta a diferença de peso entre ela e o caminhão, fiz algus cálculos rápidos e conclui que depois da pancada a velocidade do esférico beirou os 60 km/h.

Como achei esse número? Vamos lá. Supondo-se que tenha havido um choque perfeitamente elástico, a bola manteve a velocidade relativa em relação ao caminhão, ou seja, 30 km/h. Sendo a massa do caminhão muito maior do que a da bola, sua velocidade não sofreu alteração. Na beira da calçada, chupando drops de aniz, vi a bola afastando-se parabolicamente do caminhão com velocidade de relativa inicial de 30 km/h. Portanto, para mim ela viajou a 60 km/h.

Descontando-se o fato do choque não ter sido perfeitamente elástico, pois esse tipo de choque é ideal, conclui, sem medo de errar, que a velocidade da bola aproximou-se dos 60 km/h.

Usando matemática a solução seria assim:

1 =  (v' - 30) / 30

v' - 30 = 30

v' = 60

Simples né? Como é elegante a matemática que permite dizer muito em poucas linhas.

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Opinião

O preço da verborragia

Editorial do Estadão
Os iranianos que se manifestavam contra a fraude que permitiu a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, em junho do ano passado, nada podiam fazer quando o presidente Lula comparou os seus protestos ao "choro de perdedor" dos torcedores de um time de futebol e reduziu os choques de rua em Teerã entre os opositores e as forças de repressão do regime a "apenas uma coisa entre flamenguistas e vascaínos".

Também os presos políticos cubanos não tinham como responder ao dirigente brasileiro quando, em março último, ele condenou a greve de fome que levou à morte o dissidente Orlando Zapata Tamoyo, por sinal na véspera de uma visita de Lula a Havana, onde considerou o seu sacrifício "um pretexto para liberar as pessoas" - e foi além. "Imagine", comparou, "se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade."

Muito menos poderia retrucar ao presidente a iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento por alegado adultério. Perguntado dias atrás sobre a campanha "Liga Lula" para que interceda pela sentenciada junto ao seu bom amigo Ahmadinejad, ele reagiu: "As pessoas têm leis. Se começarem a desobedecer as leis deles para atender o pedido de presidentes, daqui a pouco vira uma avacalhação."

Mas há quem possa dar-lhe o troco. Foi o que fez o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, depois que um leviano e boquirroto Lula desdenhou do agravamento das tensões entre Bogotá e Caracas. O protoditador Hugo Chávez rompeu as relações da Venezuela com o país vizinho em represália à decisão colombiana de apresentar na OEA as provas da presença de 1.500 membros da organização narcoterrorista Farc em território venezuelano, obviamente sob a proteção do caudilho.

Lula, cuja primeira manifestação a respeito já tinha deixado claro o seu alinhamento automático com Chávez - "as Farc são um problema da Colômbia, e os problemas da Venezuela são da Venezuela", sofismou -, reincidiu na quarta-feira, véspera da reunião dos chanceleres da ineficaz União das Nações Sul-Americanas (Unasul), em Quito. O tema do encontro, que deu em nada, era o conflito político entre os dois países. "Falam em conflito, mas ainda não vi conflito", minimizou Lula. "Eu vi conflito verbal, que é o que mais ouvimos aqui nessa América Latina."

Equiparar a um bate-boca um problema dramático para a Colômbia, que passou 40 anos sob o terror das Farc antes de serem reduzidas à mínima expressão possível pela firmeza com que as enfrentou o presidente Uribe, foi nada menos do que um inconcebível insulto a uma nação e ao seu governante. Uribe, que difere de Lula por falar pouco e fazer muito, não poderia fingir que não ouviu a afronta.

Ele replicou com a mais dura mensagem já dirigida a um chefe de Estado brasileiro, até onde chega a memória. "O presidente da Colômbia", dispara a nota, "deplora que o presidente brasileiro, com quem temos cultivado as melhores relações, refira-se a nossa situação com a Venezuela como se fosse um caso pessoal." Uribe ainda o acusou de ignorar a ameaça que a presença das Farc na Venezuela representa "para a Colômbia e o continente".

Trata-se da primeira demonstração da perda de respeito por Lula no exterior - e ele só tem a culpar por isso a sua irreprimível logorreia. Não terminasse o seu mandato daqui a 5 meses, a erosão de sua imagem internacional só se intensificaria. Não seria de espantar se um dia alguém o admoestasse, como o rei da Espanha, Juan Carlos, fez com o bravateiro Chávez, perguntando-lhe: "Por qué no te callas?" Não bastasse a grosseria, Lula nada fez para assegurar aos colombianos de que poderia ser um intermediário isento entre Bogotá e Caracas.
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Manchetes do dia

Sábado, 31 / 07 / 2010

Folha de São Paulo
"Célula-tronco de embrião será testada em humano"

Empresa dos EUA tentará reconstruir medula de paraplégicos; teste envolve riscos, dizem especialistas

A empresa americana Geron conseguiu autorização da FDA, órgão que controla remédios e alimentos nos EUA, para o primeiro teste com células-tronco embrionárias em seres humanos. As células serão usadas para reconstruir a medula espinhal de pessoas paralisadas. O teste clínico será feito com dez pacientes paraplégicos que tenham sofrido o acidente causador da paralisia até 15 dias antes. A Geron já havia obtido permissão para o teste em 2009, mas teve de parar ao ser questionada pela FDA sobre cistos surgidos no organismo de camundongos em pesquisas preliminares. A empresa quer dar início ao recrutamento de pacientes em um mês.

O Estado de São Paulo
"Um ano depois, Sarney barra inquérito dos atos secretos"

Especial
Sob Censura
O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), se nega a responder aos questionamentos da Procuradoria Geral da República sobre os atos secretos. Com isso, paralisou a investigação aberta em 16 de junho de 2009, seis dias após o Estado revelar a existência dos atos, que registram privilégios a parentes e aliados de senadores, inclusive Sarney. Logo depois, em 31 de julho, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal censurou o jornal no caso da operação da Polícia Federal que investigou Fernando Sarney, filho do senador. Passado um ano, a censura se mantém, porque o mérito não foi julgado.

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sexta-feira, julho 30, 2010

Dica do Blog


Eclipse na praia

Na foto o eclipse solar total de 11 de julho, visto da praia de Anakena Beach, na Ilha de Páscoa.

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Educação

Progressão continuada

Fernando Barros - FSP, 30
Quem implantou o sistema de progressão continuada em São Paulo foi o educador Paulo Freire, insuspeito de "tucanismo", quando secretário de Luiza Erundina. Mário Covas adotou o modelo no Estado em 1995. O desafio daquela época era, fundamentalmente, colocar (e manter) a criança na escola. As taxas de repetência e de evasão escolar eram alarmantes. Hoje, ao menos no ensino fundamental, as crianças estão na escola. O que é um avanço.

Reprovar mais não é sinônimo de elevar o nível do ensino. Pode, dizem especialistas, significar o contrário. Estudos mostram que o aluno repetente aprende menos, e não mais que seus colegas; que a reprovação pode ser fator de "deseducação", além de estímulo à exclusão social.

Nota do Editor - Tirando casos extremos, pontos fora da curva, a reprovação se dá em função da falta de atenção da escola em relação ao aluno. O sistema educacional brasileiro não é essencialmente pior do que o de países que apresentam resultados melhores. O que emperra o andar da carruagem é falta de gente. Precisamos de mais professores, mais orientadores, mais bibliotecários, mais tudo. Sem educadores não há como educar. (Sidney Borges)

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Coluna do Celsinho

Congresso Internacional

Celso de Almeida Jr.
Mais uma vez, Ubatuba sedia um Congresso de Educação, sendo que, neste ano, já contamos com a participação de convidados de outros países.

Muito gratificante saber que os encontros para os profissionais da rede municipal de educação, iniciados há mais de uma década, contribuíram para consolidar um Congresso Internacional.

Isso é motivo de orgulho para o município.

Nessa história, deve-se homenagear os secretários de educação e respectivas equipes dos governos anteriores pela iniciativa e pela sustentação do projeto de oferecer capacitação de qualidade para os profissionais da rede municipal.

Ao atual secretário, Arnaldo, o mérito de ter tido a coragem de avançar, apesar dos muitos obstáculos.

Agora, precisamos nos estruturar para aproveitar o evento como instrumento para fomentar o turismo em julho e, para isso, é preci so que a prefeitura compreenda a importância do envolvimento da Associação Comercial, do Sindicato de Hotéis e de outras entidades.

Não basta apenas a boa vontade e o esforço gigantesco do Secretário de Educação e sua equipe.

Toda a prefeitura precisa se envolver nesta empreitada, facilitando a aproximação com a sociedade civil organizada.

A qualidade do Congresso nos credencia a divulgá-lo de uma forma mais intensa, nos moldes da Feira Literária de Parati, que, alías começa na sequência de nosso evento.

Sonhar, acreditar e agir permitiram transformar o 1º Congresso Internacional de Educação em realidade.

Seguindo a mesma fórmula, conseguiremos projetá-lo nacionalmente.

Parabéns aos idealizadores e organizadores deste projeto.
 
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Manchetes do dia

Confundindo o público e o privado

Editorial do Estadão
Senadores estão usando dinheiro do contribuinte para suas campanhas eleitorais. Cerca de 1.100 funcionários de gabinetes, pagos pelo Senado, estão em atividade nos Estados, nos escritórios políticos de candidatos. Dos 53 senadores em busca de votos, 33 ampliaram o quadro de servidores de confiança entre julho de 2009 e julho deste ano e a maior parte desse pessoal foi mandada para fora de Brasília, para trabalhar junto às bases. Quem não contratou mais pessoal também transferiu servidores. Assim, senadores e outros políticos já dispõem, na prática, de financiamento público de campanha, embora por vias tortas. Essa distorção é possível porque os parlamentares não observam uma clara distinção entre suas funções públicas e seus interesses particulares.

Como as normas deixam espaço para a confusão, recursos do Tesouro acabam sendo usados pelos políticos tanto para o trabalho institucional quanto para os objetivos estritamente pessoais e partidários. Só em julho, segundo reportagem publicada no Estado, 53 assessores foram realocados para os "escritórios de apoio" de vários senadores, incluídos os candidatos Marcelo Crivella (PRB-RJ), Renan Calheiros (PMDB-AL), Heráclito Fortes (DEM-PI), Marconi Perillo (PSDB-GO) e Paulo Paim (PT-RS). Desde fevereiro, 175 foram transferidos.

Dois senadores por São Paulo, Aloizio Mercadante (PT) e Romeu Tuma (PTB), estão usando o trabalho de servidores do Senado em seus escritórios na capital paulista. Mercadante alega usar somente o serviço de um motorista de confiança, com ele há 20 anos, mas o jornal tem recebido material de campanha enviado por sua assessora de imprensa paga pelo Senado. O argumento da acumulação de funções parlamentares e da atividade de campanha é geralmente usado pelos candidatos.

A separação entre os campos talvez seja difícil em algumas circunstâncias, mas a diferença entre a função institucional e o trabalho político-eleitoral, incluída a maior parte dos contatos com as bases, não envolve nenhum mistério. Parlamentares federais e estaduais misturam as duas atividades não só quando transferem servidores para ajudar em campanhas. A promiscuidade é parte do dia a dia, ao longo de todo o mandato.

Escritórios políticos são mantidos nas cidades de origem, com verbas pagas como compensação por despesas no exercício da atividade parlamentar. O contribuinte custeia, portanto, funcionários, imóveis e meios de transporte usados para o atendimento de interesses privados.

É preciso insistir neste ponto, nem sempre lembrado pelos cidadãos: o cidadão só é agente público no exercício de uma função institucional. Isso vale para o parlamentar. Quando um senador ou deputado vai ao Butão em missão oficial, cabe ao Senado, isto é, ao Tesouro, custear as despesas de sua viagem. Quando ele sai a passeio ou para visitar sua base eleitoral, sua atividade é particular. Essa distinção foi esquecida, ou desprezada, quando parlamentares gastaram passagens de avião para turismo - até no exterior - ou para beneficiar parentes e amigos. Houve escândalo quando alguns críticos decidiram discutir o assunto.
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Manchetes do dia

Sexta-feira, 30 / 07 / 2010

Folha de São Paulo
"Em 20 anos, sobe 39% proporção de mortes neonatais"

Mortalidade infantil registra queda de 54% desde 1990, mas progresso é bem menor entre bebês de até 28 dias

Dados do Ministério da Saúde apontam mudança no perfil da mortalidade infantil no país. Em 1990, bebês com até 28 dias respondiam por 49% do total da mortalidade de crianças com até um ano de idade. Em 2008, a participação saltou para 68% (alta de 39%). Em 20 anos, o Brasil reduziu as mortes infantis (até um ano) em 54% graças a programas de vacinação e saneamento, entre outros fatores. Na faixa dos neonatais, porém, pesam fatores estruturais não resolvidos, como pré-natais deficientes e falta de UTIs neonatais. Para o governo, 70% das mortes de recém-nascidos seriam evitáveis.

O Estado de São Paulo
"Uribe 'deplora' declaração de Lula"

Em nota, presidente colombiano critica o brasileiro por ter qualificado a crise entre Venezuela e Colômbia como mero 'conflito verbal'

O presidente colombiano, Álvaro Uribe, criticou o presidente Lula por ter qualificado a crise entre Colômbia e Venezuela meramente como um "conflito verbal". Em nota, Uribe disse que "deplora" o fato de que Lula, com quem afirma ter "cultivado as melhores relações", tenha se referido à crise "como se fosse caso de assuntos pessoais". Para Uribe, Lula ignora a "ameaça" que representa a presença de guerrilheiros das Farc na Venezuela. O brasileiro não quis comentar. Presente à reunião da União Sul-Americana de Nações (Unasul) para abordar a crise, o chanceler da Colômbia, Jaime Bermúdez, disse que não tinha "grandes expectativas" sobre o encontro, convocado pela Venezuela, e que seu país não recuaria da denúncia de que o governo de Hugo Chávez apoia as Farc.

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quinta-feira, julho 29, 2010

Eleições 2010

Impugnados

Sidney Borges
Usando palavras do filósofo Vicente Matheus, "devo de dizer" que recebi telefonemas e e-mails pedindo detalhes das impugnações anunciadas anteontem pela Justiça Eleitoral, publicadas na Folha e republicadas no blog.

Hoje, depois do almoço, fui aparar as pontas dos cabelos que me restam, 54 fios de cada lado e alguns na parte superior da cabeça, ainda não contados, certamente mais de 20.

Depois de ouvir as interessantes histórias do Fanta, (meu barbeiro que acabou de fazer 70 anos, viva o Fanta!) fui buscar o carro que deixei estacionado nas imediações da prefeitura. Só então me dei conta do interesse popular em torno dos "barrados no baile". A cada meio quarteirão fui parado como se fosse cantor de sucesso, um Waldick Soriano litorâneo. Só faltou pedirem autógrafos. Espero que não confundam litorâneo com neoliberal o que seria rematada besteira, neoliberalismo nunca existiu no Brasil.

Calma minha gente.

As impugnações não são definitivas, cabe recurso em âmbito estadual e se a decisão for desfavorável é possível pedir a benção ao TSE em Brasília. Depois disso não sei, mas certamente haverá algum "juris esperneandi" capaz de recolocar donos de supostos fichários maculados na disputa pelo beijo da "deusa das urnas".

Alguém ficará pelo caminho, lamento, faz parte do aprimoramento democrático.

O Brasil está em processo de mutação, embora haja quem vislumbre tudo igual ao que sempre foi desde que Cabral aqui chegou, deparou-se com as índias desnudas e saiu maluco a gritar: vergonhas saradinhas, vergonhas saradinhas...

Desse dia em diante nada mais teve importância!

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"Plus ça change, plus c'est la même chose".

Dialética radical

Do blog do Alon
Os últimos números reafirmam nossa profunda dependência do exterior. Está meio demodé tocar no assunto, nestes tempos dialéticos, quando a moda é ser ao mesmo tempo você e o seu contrário.

Está passando quase despercebido o crescimento do deficit em transações correntes do balanço de pagamentos. Em resumo, o saldo da balança comercial não vem sendo suficiente para compensar as maciças remessas de lucros e dividendos. A relativa tranquilidade nasce de dois vetores: as reservas cambiais e a captação de investimentos vindos do exterior.

Ou seja, a economia brasileira resiste também porque continua escancarada aos fluxos globais do capital, e assim o país vai se financiando. Não deixa de ser irônico que aconteça sob um governo do PT, mas essa observação já anda meio batida, reconheço (comparar o que o PT dizia antes de chegar ao governo e o que fez depois).

Sempre é útil, entretanto, registrar que enquanto Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e entourage batem dia sim outro também na tecla do “fim da dependência”, nunca antes na história deste país estivemos tão dependentes do dinheiro vindo de fora. Mas como ele existe e está disponível para um governo tão “market friendly” quanto o nosso, a coisa passa disfarçada. O governo fala grosso. E a oposição se faz de surda. Que não é besta.

Lula adora repetir, e cada vez mais, o quanto não dependemos agora do Fundo Monetário Internacional, e isso tem um efeito simbólico conhecido. Deve ter também algum efeito eleitoral. Mas o presidente não conta a história toda. Deixa de dizer que passamos a depender de um dinheiro muito mais caro, o dinheiro que vem para cá atrás das nossas obesas taxas de juros e, num grau menor, das gordurosas margens.

Haverá negócio mais bacana no planeta do que ser dono de um banco ou de uma companhia telefônica no Brasil?

O faz de conta está mesmo com tudo. Pena é que alguns menos treinados na mistificação escorreguem de vez em quando. O chanceler Celso Amorim protagonizou uma página espantosa na trajetória da diplomacia pátria, ao dizer, no início deste mês, na Câmara dos Deputados, que o Brasil pôde votar no Conselho de Segurança da ONU contra as sanções ao Irã porque não deve ao FMI.

Ou seja, segundo Amorim, quem votou a favor das sanções fê-lo por ser devedor.

Restou porém fora da lógica do ministro um detalhe: o maior credor do mundo, a China, votou favoravelmente.

É o caso de especular. Será que Barack Obama ameaçou Pequim com um calote dos títulos do Tesouro americano caso os chineses não acompanhassem o voto americano contra o Irã? A julgar pelo raciocínio de Amorim, quem sabe?

Ironias à parte, os últimos números reafirmam mesmo nossa profunda dependência do exterior. Está meio démodé tocar no assunto, nestes tempos de dialética radical, quando a moda é ser ao mesmo tempo você e o seu contrário. Mas é fato.

E por que permanecemos atrelados ao nosso roteiro tradicional? Porque continuamos incapazes de gerar a poupança necessária para sustentar nosso consumo e, ao mesmo tempo, nossas necessidades de investimento.

Somos um Estados Unidos em escala reduzida. No que eles têm de pior. No vício de viver do dinheiro e do trabalho alheios. Na cultura do esbanjamento. A diferença é que eles ainda podem, por enquanto, imprimir a moeda mundial. Nós não.

Lula e Dilma fizeram o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Do ângulo simbólico foi ótimo. Havia tempo que a agenda do crescimento não era colocada em primeiro lugar.

Infelizmente, porém, na rubrica dos recursos orçamentários para investimento ou na taxa de poupança não se registrou neste governo evolução significativa em relação ao anterior. O que deixou de ser drenado em juros virou custeio. Bom de um lado, pelos repasses aos mais pobres, mas péssimo para quem acredita na essencialidade da poupança nacional e do investimento público para crescer de maneira sustentada.

Nos últimos dias os analistas respiram aliviados, pois parece que o Banco Central tem sido eficaz ao impedir a aceleração do crescimento. Lula festeja, pois parece que nosso “PIB potencial” (o que não arrebenta a inflação) anda um pouquinho maior em relação ao do governo anterior.

Como se sabe, vivemos uma era de profundas transformações.

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Opinião

Essa gente transparente

Eugênio Bucci - O Estado de S.Paulo
Com a abertura da temporada de caça ao voto, o substantivo "transparência" vai virando objeto de culto e de comício. É reverenciado em toda parte, a todo o volume, por todos os candidatos; estamos diante de uma divindade suprapartidária e de seus devotos barulhentos. Mas há um detalhe intrigante: ninguém parece saber muito bem o que quer dizer essa palavra. O culto da transparência, entre nós, é deveras opaco. Ou capcioso.

Ninguém mais se lembra, mas o vocábulo ganhou notoriedade nos anos 1980, quando, na então União Soviética, Mikhail Gorbachev adotou seu programa de reformas em torno de dois eixos: a perestroika (reestruturação) e a glasnost (transparência). O projeto de abrir janelas de vidro límpido nas paredes de chumbo do Estado stalinista causou um cataclismo. O Estado não aguentou. Gorbachev levou seu propósito tão longe que acabou derretendo as paredes, os burocratas e a própria URSS. Naquele tempo, transparência era isto: uma bandeira mortal para um organismo que não resistisse à luz solar.

E o que foi feito hoje desse substantivo? Ouvindo a gritaria dos caçadores de votos, a gente fica com a impressão de que ele se reduziu a um sinônimo empolado de honestidade. Nada mais que isso. Um sinônimo mais "chique" - ou mais "sofisticado", como preferem dizer. Como se honestidade, esse termo hoje visto como "simplório", fosse coisa "de pobre": gente fina não é honesta, é transparente.

Poucos exigem transparência do Estado, muitos usam o substantivo como purpurina cívica para se maquiar na TV. A palavra acabou se diluindo num enfeite inofensivo. Virou categoria de melodrama, repertório de cena de novela, como quando a mocinha olha candidamente nos olhos do galã e diz: "Sabe, meu bem, eu sou uma pessoa muito transparente. Não posso evitar, Deus me fez assim."

Os candidatos e candidatas olham-nos mais ou menos do mesmo jeito para recitar mais ou menos a mesma jura. Ao se declararem "transparentes", assumem o ar indefeso de quem confessa uma debilidade, mas uma debilidade especialíssima, muito vantajosa. Eles se confessam inábeis para ocultar as próprias emoções, como se estivessem condenados a dizer a verdade, sempre a verdade. Desprovidos de malícia pela própria natureza, esperam maliciosamente merecer a confiança pública. A confiança que pleiteiam é uma forma de piedade.

Eis aí um embuste, ou melhor, eis aí o grande embuste da temporada. Quem se diz assim tão transparente, das duas, uma: ou não parou para pensar na insustentabilidade lógica do que postula ou está querendo pregar-nos uma peça.

Seres humanos não são como o vácuo do espaço sideral. A luz não os atravessa como a uma lâmina cristalina. Humanos são sólidos e opacos, tropeçam no fio do abajur, derrubam o copo na mesa, fazem sombra uns aos outros, cobrem-se de roupas e de linguagem - ou não existiram. Pedir a um sujeito que seja transparente a esse ponto equivale a pedir que ele desapareça. Os segredos íntimos, conscientes ou não, são indispensáveis para que a pessoa se estruture e possa almejar a liberdade. Uma sociedade em que ninguém tivesse segredos seria insuportável, além de impossível.

Por isso, o mito da pessoa (ou do candidato) transparente, mais que sentimentaloide, é perverso. Procura transferir para gente de carne e osso um atributo que deve ser do Estado - a transparência, como atributo do Estado, evita que a opacidade humana, quando instalada dentro dele, possa converter-se num monstro. Numa pessoa a mesma transparência não faz sentido. A não ser como imposição autoritária ou como fraude que quem promete imprimir à máquina pública suas alegadas virtudes de caráter (como se ela, a máquina pública, fosse regida pelos humores do governante, e não por leis impessoais).

Aqui chegamos ao núcleo da incompreensão que cerca esse tema. Na esfera individual, a presunção da transparência absoluta pode mascarar a má intenção dos embusteiros ou massacrar a boa-fé dos inocentes. Se não houver um espaço indevassável para resguardar a personalidade de cada um, não haverá liberdade. Não por acaso, o voto, nada menos que o voto, é secreto e inviolável. Esconder o próprio voto é direito fundamental do cidadão. Não por acaso, também, os Estados totalitários têm obsessão por vigiar atos, declarações, desejos e até o pensamento dos súditos. São Estados opacos que impõem a transparência compulsória ao cidadão.

Na democracia o princípio é outro. O administrador público tem o dever de assegurar a todos o acesso às informações sob guarda do Estado. Cabe a ele zelar para que essas informações sejam claras, simples, diretas e confiáveis. Esse dever do Estado - e do governo - deveria repelir qualquer tentativa de proselitismo com verba pública. A chamada propaganda oficial, ou a tentativa de convencer a sociedade das teses governistas, agride o dever de transparência do Estado. A informação de interesse público precisa estar acessível, desinteressadamente acessível, para que cada um forme a sua opinião sobre o que quer que seja. Isso porque o regime democrático respeita a esfera íntima do indivíduo, que inclui a liberdade de crença e de pensamento.
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Manchetes do dia

Quinta-feira, 29 / 07 / 2010

Folha de São Paulo
"Acordo da Oi pode exigir aporte de dinheiro público"

Governo não confirma nem nega uso de recursos, mas impõe que tele continue sob controle nacional

A participação do governo federal foi fundamental na conclusão dos dois negócios que mudam o rumo das telecomunicações no país, segundo apurou a Folha. Por R$ 8,4 bilhões, a Portugal Telecom ficará com 22,4% da Oi, que terá 100/0 da tele europeia. Por R$ 17,2 bilhões, a PT vendeu sua parte na Vivo à Telefónica. La Fonte e Andrade Gutierrez não podem vender ações até 2015. BNDES e fundos devem injetar no futuro R$ 1,1 bilhão para manter suas participações na Oi. O governo não confirmou nem negou o aporte. Para que a operação fosse fechada, o presidente Lula impôs que a tele continuasse "brasileira da Silva".

O Estado de São Paulo
"Senadores usam servidores públicos em suas campanhas"

Assessores que deveriam estar em Brasília são enviados a Estados para trabalhar na reeleição de parlamentares

Assessores pagos pelo Senado que oficialmente deveriam cumprir expediente nos gabinetes estão trabalhando para os senadores pedindo voto e coordenando a campanha dos parlamentares, informa Leandro Colon. Levantamento feito pelo Estado mostra que, dos 53 senadores que disputam as eleições, 33 aumentaram o quadro de servidores de confiança entre julho de 2009 e julho de 2010 e transferiram a maioria para seus Estados. Os senadores que não aumentaram também tiraram seus funcionários de Brasília. Só nos últimos 23 dias, desde o início da campanha, 53 assessores foram realocados. Desde fevereiro, foram cerca de 175. Hoje, há por volta de 1,1 mil assessores espalhados pelo País recebendo salários do Senado sem qualquer fiscalização.

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quarta-feira, julho 28, 2010

Beatles and Julian Lennon - 'When I'm 64'

Lovely Rita, Meter maid - The beatles

Educação

O papel da avaliação

Trechos da entrevista de Andreas Schleicher, diretor de Programas de Análise e Indicadores em Educação da OCDE e responsável pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). Caderno Aliás, do Estado de SP (25).

O propósito das avaliações não é prioritariamente o de definir caminhos de entrada ou saída para os estudantes, mas sim o de identificar necessidades e melhorias no processo de ensino. Bons sistemas de avaliação reconhecem que um aprendizado de excelência abrange tanto o processo quanto seu conteúdo. O resultado dessas avaliações não produz apenas notas para as escolas, mas tenta fornecer uma compreensão abrangente sobre os estudantes e as estratégias conceituais que eles usam para resolver problemas.

Em todos os países que se saíram bem no Pisa, é responsabilidade das escolas e dos professores se engajar na diversidade de interesses dos estudantes, em suas capacidades diferenciadas e em seus diversos contextos socioeconômicos, sem a alternativa de fazer o aluno repetir de ano ou se transferir para uma escola menos exigente - atalhos normalmente usados em países com desempenhos ruins, onde os diretores de escola e professores podem enganar a si próprios dizendo que fizeram a coisa certa, mas têm os alunos errados.

No passado, alunos diferentes eram ensinados da mesma forma. Hoje, o desafio é incluir a diversidade no ensino. O objetivo do passado era a padronização. Agora, é a criatividade, a personalização das experiências. O passado era centrado no currículo, o futuro é no aprendiz. Nós também precisamos entender que a aprendizagem não é um lugar, é uma atividade. Sistemas educacionais precisam reconhecer que indivíduos aprendem de formas diferentes - inclusive, de formas diferentes ao longo de suas vidas.

Nota do Editor - O raciocínio está corretíssimo. Faltou o autor dizer que para uma escola agir de acordo com a receita é preciso dobrar ou até triplicar o número de educadores. Hoje o que temos lembra o pastoreio de ovelhas nas montanhas da Escócia, um homem e um cachorro cuidando de centenas de animais. Fazerndo a transposição e analisando apenas o fator quantitativo, notamos que nas escolas dezenas de alunos são educados e avaliados por apenas um professor de cada disciplina. De forma estanque, sem que os preceptores conversem uns com os outros. Não dá certo. Nunca dará certo. Educação custa caro, é investimento. A longo prazo educar é mais produtivo do que trens balas, Copas do Mundo e Olimpíadas, mas não seduz governos. Não dá votos. (Sidney Borges)

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Imprensa

Tudo novo

Carlos Brickmann no Observatório da Imprensa (original aqui)
Atenção para o reformuladíssimo Diário de S.Paulo: depois da trágica experiência de acariocação do Diário Popular, que derrubou pelo menos 2/3 da circulação, a Traffic mexe ali para valer, buscando retomar seu tradicional rótulo de Rei das Bancas. A reforma, capitaneada por um jornalista de primeira linha e muita experiência, Leão Serva, ex-Folha de S.Paulo, ex-Jornal da Tarde, é ousadíssima: um só caderno, com formato entre tablóide e berliner, todo o noticiário distribuído por apenas três editorias, busca incessante do que chamam de pós-noticioso – traduzindo, parar de publicar no dia seguinte aquilo que a internet, o rádio e a TV deram na véspera, e oferecer ao leitor informações novas e articuladas a partir daquilo de que ele já tomou conhecimento.

Até a disposição física da Redação mudou: agora, a mesa da chefia fica no centro e as editorias distribuídas em volta, de maneira a recuperar a comunicação permanente entre os profissionais, um item importante de interação jornalística que a imprensa havia abandonado. Se der certo, será uma revolução. E tem tudo para dar certo.

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Opinião

A reforma global dos bancos

Editorial do Estadão
Como Santo Agostinho - "Senhor, dá-me a castidade, mas não agora" -, os bancos terão um prazo confortável para adotar os novos padrões de virtude recomendados pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS). Reunidos na sede da instituição, em Basileia, presidentes de 26 dos mais importantes bancos centrais (BCs) concordaram em propor seis medidas para aumentar a segurança das operações financeiras, proteger os consumidores e diminuir o risco de quebras em série nos mercados.

A Europa e a América do Norte mal começaram a sair da crise deflagrada pelo estouro da última grande bolha de crédito. Economias com melhor desempenho, como as emergentes, ainda sofrem no comércio internacional os efeitos da recessão e da insegurança nos mercados mais desenvolvidos. Mas a recuperação global já deverá estar bem mais avançada quando o sistema bancário começar a ajustar-se para valer. A reforma deverá ocorrer até 2018, a partir do fim de 2012, e as grandes linhas de mudança ainda serão submetidas ao Grupo dos 20 (G-20), na reunião de cúpula de novembro, em Seul, na Coreia.

O início do ajuste num prazo menor poderia atrapalhar a reativação das operações de crédito. Isso dificultaria a superação da crise. Mas o prazo previsto elimina esse risco, segundo o presidente do Comitê de Basileia, Nout Wellink.

Um esboço da reforma publicado em dezembro foi criticado pelos banqueiros como rigoroso em excesso e perigoso para o setor e para a economia.

O acordo anunciado nessa segunda-feira em Basileia foi considerado um pouco mais brando por analistas. As mudanças incluem, por exemplo, um prazo mais longo, dividido em etapas, para a implantação dos novos limites de alavancagem - a relação entre os empréstimos concedidos e o capital do banco. Houve concessões, segundo observadores, ao lobby dos banqueiros e também às pressões disfarçadas de alguns governos.

O Comitê de Basileia rejeita essa versão, naturalmente. O presidente do BC brasileiro, Henrique Meirelles, classificou como prematura qualquer afirmação sobre o enfraquecimento das propostas. Só se poderá avaliar o rigor das normas, argumentou, quando forem divulgados todos os parâmetros. Até o fim do ano o novo conjunto de regras será detalhado.

"As novas regras são adequadas", disse Meirelles, "e a chave, agora, é que os porcentuais sejam corretamente definidos para que de fato os bancos possam absorver perdas."

Pela primeira vez houve acordo quanto à aplicação de normas globais de alavancagem, ainda não adotadas em alguns países da Europa. A ideia inicial é testar um padrão de 3%. Para cada 3 unidades de capital, a instituição poderá aplicar até 100. O cálculo das aplicações incluirá não só os ativos inscritos nos balanços dos bancos comerciais, mas também os valores "de fora", como as aplicações em derivativos. Isso deverá tornar mais eficiente o controle de riscos. A formação da última grande bolha foi facilitada pela falta de supervisão das operações "fora de balanço". Em vários mercados, a vigilância era limitada às operações típicas de bancos comerciais.

Novos colchões de segurança serão exigidos de todos os bancos, para absorção mais eficiente dos impactos financeiros.
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Manchetes do dia

Quarta-feira, 28 / 07 / 2010

Folha de São Paulo
"Criminalidade cai no 2º trimestre em São Paulo"

Na contramão da queda de homicídios, furtos e roubos, mortos em chacinas já superam 2009

Após dois trimestres de alta, o Estado São Paulo registrou queda na maioria dos índices de criminalidade no período de abril a junho deste ano, segundo números obtidos pela Folha. Caíram as ocorrências de homicídio doloso (intencional) e latrocínio (roubo seguido de morte) - 10% e 22%, respectivamente. Nas duas situações, as reduções se referem ao total de casos, não de vítimas. Os números indicam recuo também nos índices de roubo, furto, roubo de veículos, de carga e a bancos. As informações completas, que incluem sequestro e tentativa de homicídio, serão divulgadas pelo governo do Estado até o dia 31. A reportagem apurou que o governo estadual deve atribuir a melhora à alta no nível de emprego e na atividade econômica do país. Na contramão dos índices em queda, 53 pessoas já foram mortas em chacinas no Estado neste ano. Ao longo de 2009, foram 51 vítimas em atentados com três ou mais homicídios.

O Estado de São Paulo
"Setor público reforça liderança no crédito com BNDES e Caixa"

Participação estatal no total de financiamentos cresce e bate recorde em junho

Puxados sobretudo pelo BNDES e pela Caixa Econômica Federal, os bancos públicos ampliaram em junho a liderança na concessão de crédito. Relatório do Banco Central mostra que o estoque de financiamentos concedidos pelos bancos públicos atingiu 42,3% de todas as operações, ante 41,7% em maio. Para o BC, o movimento não reverterá a tendência de recuperação da participação dos bancos privados. Segundo o relatório, a concessão de novos empréstimos para pessoas físicas caiu 0,5% em junho, enquanto os financiamentos para empresas cresceram 4.4%.

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terça-feira, julho 27, 2010

PENAS DO TIÊ - NARA LEÃO E FAGNER

Acuma?

“Eu acho que é muito diferente a instituição Exército brasileiro, Forças Armadas, daquele período histórico. Acho que inclusive naquela época cê tinha diferenças entre o Exército. E hoje eu acho que nós temos um Exército num país democrático, em geral, sem exceção, nas três Forças”.

Dilma Rousseff
Com a imensa clareza que lhe é peculiar

Ramalhete de "Causos"

Não é qualquer cerração que vence o amor

José Ronaldo dos Santos
Em certa ocasião, talvez por alguns meses, morou na praia da Fortaleza um homem que diziam ser da capital, de São Paulo. Apesar de ser chamado de Hiroito, ele não tinha nada de japonês. Alguns afirmavam que ele era muito perigoso, que já tinha cumprido pena por crimes terríveis, etc. Acho que ninguém sabia quanto do falatório tinha de verdade. Só sei que aquele senhor prestava muito atenção a tudo e adorava estar nas rodas de causos - uma empreitada diária em frente ao porto da Venda do Jorge. Numa dessas ocasiões ouvíamos o Dário Barreto contando sobre um empreendedor da praia das Sete Fontes: tratava-se de um português que investiu na pesca, porém nos moldes de uma empresa considerável onde, além da imensa prole, contratava vários camaradas de outras praias. Para encurtar o causo, vamos ao principal: um de seus camaradas, morador da distante praia Grande do Bonete, se apaixonou pela primeira filha do empreendedor. Todo mundo já sabe que a paixão é capaz de tudo; assim... , numa madrugada, antes do galo cantar, os dois desceram uma pequena canoa de capurubu, venceram a arrebentação e rumaram mar afora. Se tudo desse certo, chegariam dali a três horas à praia do moço, onde até uma casa de pau-a-pique já estava pronta para recebê-los. Porém, logo perceberam a cerração sobre o mar. Quem já passou por isso sabe muito bem do que estou falando! Perde-se totalmente o rumo porque nada se vê para lado algum. E agora? Os dois totalmente convictos daquilo que queriam, impelidos nos sonhos que punham em movimento, continuavam remando como se estivessem sob as ordens do austero pai e patrão. Primeiro continuaram na sensação de que estavam indo em linha reta, como se imaginassem entre a ilha do Mar Virado e a ponta da Fortaleza; depois buscaram aguçar outros sentidos. O nariz do moço, que igual ainda não se viu entre os colossais dos caiçaras, logo sentiu cheiro de ingá, da flor do ingazeiro, deduzindo que o rumo era aquele, porque no Saco Manso do Zacarias só tinha essa maravilha de árvore. Só era preciso apurar os olhos para costear a Lage Grande. Esta era traiçoeira! De sua parte, também sendo prendada na audição, porque sempre atentava às fofocas resmungadas de suas origens, a donzela caiçara que até hoje, na sua velhice continua linda, ouvia guinchos distantes e repassava ao seu companheiro. Daí ele afirmar: -“Estamos no rumo certo! Mete o remo na água, mulher! O que você escuta só pode ser os porcos do Tiago Roseno; eles vivem num chiqueiro na Ponta da Deserta. Também sinto o furtum daquele porcalhão do Rogé que não toma banho nunca. Ele dorme nas canoas do rancho do Batengo que é por ali, no Saco Grande”. Após tudo isso, quando o sol ainda nem pensava em iluminar o contorno da Ilha da Vitória, eles embicaram no canto manso da Grande do Bonete. Foram acolhidos com muito carinho; deles até foi escrito pasquim. Esqueceram do que poderia acontecer depois, quando o patriarca da Sete Fontes sentisse a falta do valoroso camarada de rede e da filha que era de igual valia sem exigir nenhum salário.

Depois, para finalizar o causo, o Dário aliviou a tensão do grupo: -“Nada pior aconteceu. O casal até hoje vive bem, tem uma montoeira de filhos. Só o amor dele pela ‘branquinha’ é que causa um pouco de desgosto no lar”. Quando o causo deu-se por encerrado, vieram os comentários. Todos se admiraram da coragem dos dois. Até aquele senhor, o Hiroito, interferiu finalmente. Com o olhar perdido na linha do horizonte, como se visse alguma coisa depois de tudo, contou uma história de um povo, dos gregos que ninguém conhecia. Assim ele narrou: - “Existiu uma tal de Helena, uma princesa muito linda de uma terra grega conhecida como Esparta, onde aportou, num belo dia, um príncipe troiano cujo nome era Páris. Eles, assim que se viram ficaram apaixonados. Possuídos por uma atração avassaladora, eles traçaram um plano de fuga”. -“Ela corneou o marido ?”. Quem interferiu com esta foi o Bito Caudio. Todos riram. Hiroito continuou: -“Foi o que aconteceu; eles cruzaram os mares desde Esparta até Tróia. O fato ocasionou uma guerra. Quem nunca ouviu falar da famosa Guerra de Tróia?”. Ninguém fez que sim, nem que não. Somente o filho do Ondino perguntou: -“Só voltando um pouquinho para eu entender melhor: o tanto que eles remaram era o mesmo tanto que da Sete Fontes até a Grande do Bonete?”. Depois de dizer que era muito mais, que a viagem durou muito tempo, o narrador da capital paulista continuou: -“Foi uma longa guerra; teve a duração de 10 anos”. Neste momento exclamou o rabugento Jorge: -“Puta que páris! Deve ser verdade, mas vamos tomar uma pinga em agradecimento por uma briga que não aconteceu pelo rapto da princesa da praia das Sete Fontes!”. Foi só risada de novo. Somente aquele que contava fez o seguinte arremate: -“As pessoas que ainda não nasceram irão cantar canções a esse respeito”. Em tempo: hoje sei que o nome completo de tal personagem é Hiroito de Moraes Joanides. Para conhecer este personagem basta ler o seu livro: "O rei da boca do lixo".

Boa leitura!

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Opinião

Entre o erro e a omissão

Editorial do Estadão
A coincidência não poderia ser mais simbólica. Enquanto na vizinhança do Brasil arde a crise deflagrada com o rompimento de relações entre a Venezuela e a Colômbia - depois de o governo de Bogotá denunciar que 1.500 narcoterroristas das Farc vivem no país vizinho sob a proteção de Hugo Chávez -, eis que o chanceler Celso Amorim dá o ar de sua presença em Istambul, participando de uma reunião com os seus colegas da Turquia e do Irã.

A diplomacia brasileira sofreu há pouco um desmoralizante revés na região, ao se associar a um esquema de enriquecimento de urânio iraniano no exterior que corroboraria os alegados fins pacíficos do programa nuclear de Teerã. Concluído durante a visita do presidente Lula ao Irã, o acordo foi apresentado como gesto de boa vontade do país e saudado pelo Itamaraty como evidência de que o contencioso entre o Ocidente e a República Islâmica pode ser resolvido pela negociação, sem ameaças.

Isso justificaria o envolvimento do Brasil no Oriente Médio, contrastando com o silêncio ensurdecedor do governo diante dos problemas bilaterais no seu entorno, como entre Colômbia e Venezuela, ou em relação à sina dos presos políticos em Cuba. Mas a euforia durou pouco. Logo em seguida, com o apoio até da China e a solitária oposição do Brasil e da Turquia, o Conselho de Segurança (CS) das Nações Unidas aprovou nova rodada de sanções contra o Irã.

Em favor do endurecimento, os Estados Unidos invocaram fatos que deixaram o Itamaraty sem respostas convincentes. Em primeiro lugar, os 1.200 quilos de urânio a serem beneficiados no exterior passaram a representar metade dos estoques iranianos, ante os 3/4 que seriam despachados caso Teerã não tivesse renegado o acerto de outubro de 2009 com a AIEA, a agência nuclear da ONU.

Além disso, expondo ao mundo a ingênua sofreguidão brasileira para tomar pelo valor de face a palavra de um governo destituído de credibilidade nessa esfera - tantas as suas tentativas de iludir os inspetores internacionais sobre as suas atividades -, imediatamente após a assinatura da chamada Declaração de Teerã o chefe do programa nuclear iraniano anunciou que o país continuaria a enriquecer urânio à taxa de 20%, cerca de seis vezes mais do que o necessário para um reator destinado à produção de energia elétrica. É mais fácil passar de 20% para os 95% usados numa bomba atômica do que completar a etapa anterior.

Por fim, a Declaração silenciou sobre a origem da crise - a recusa iraniana a abrir as suas instalações e programas à inspeção da AIEA, bem como a permitir entrevistas com os cientistas envolvidos. Consumada a decisão do Conselho de Segurança da ONU, reforçada pelo pacote de punições unilaterais dos Estados Unidos, e às vésperas da aprovação, prevista para ontem, de outra série de medidas, desta vez pela União Europeia, o Irã tornou a fazer o seu número - e o Brasil tornou a entrar no seu jogo.

O fato é que a coleção de sanções impostas a Teerã já começou a fazer efeito. O ponto crítico é o acesso aos derivados de petróleo. Embora detenha a terceira maior reserva mundial do combustível (e a segunda maior de gás), o país importa quase a metade da gasolina que consome. Grandes transportadoras estão pensando duas vezes antes de carregar gasolina para o Irã e as grandes seguradoras hesitam em atender à frota iraniana - praticamente bloqueando a entrada dos seus navios em portos estrangeiros.
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Manchetes do dia

Terça-feira, 27 / 07 / 2010

Folha de São Paulo
"Em SP, reformas de estradas não resistem um ano"

Tribunal de Contas fez auditoria aleatória em 67 vias; Estado afirma que número não é representativo e culpa prefeituras

Cerca de 70% de um lote de estradas vistoriadas pelo TCE (Tribunal de Contas do Estado) apresentou pelo menos um tipo de defeito após um ano da conclusão das obras de reforma. Os problemas vão de afundamentos e trincas no asfalto a remendos, buracos e outros tipos de desgaste, informam Alencar Izidoro e Fábio Takahashi. A auditoria, feita em serviços concluídos de fevereiro de 2008 a julho de 2009, envolveu 67 obras - dois terços delas em vicinais. Embora essas rotas municipais não sejam pedagiadas, boa parte do dinheiro para reformá-las vem da cobrança realizada em outras rodovias. A receita é repassada pelas concessionárias à administração do Estado. O governo estadual admite problemas após a reforma de algumas vias, mas não na proporção apontada pelo TCE. Há 1.166 vicinais em obras em SP, diz o secretário Mauro Arce (Transportes). Segundo Arce, na maioria das vias deterioradas, a culpa é das prefeituras - elas não atuam com rigor contra o tráfego de caminhões com carga excessiva.

O Estado de São Paulo
"Déficit externo no semestre já iguala o de 2009 inteiro"

Saldo entre entrada e saída de recursos fica negativo em US$ 23,7 bi, contra US$ 24,3 bi de todo o ano passado

A crescente remessa de lucros feita por multinacionais e a compra de produtos e serviços internacionais aceleraram a saída de dólares do Brasil em junho por meio da conta corrente do País, que registra operações com o exterior. Dados do Banco Central mostram que o saldo de entrada e saída de recursos ficou negativo em US$ 5,18 bilhões no mês passado, o pior junho da série iniciada em 1947. No semestre, o resultado ficou no vermelho em US$ 23,76 bilhões, outro recorde, quase empatando com o acumulado em todo o ano passado (US$ 24,3 bilhões). Para o BC, o rombo será financiado com dólares que entram para investimento produtivo e no mercado financeiro. Em junho, porém, a soma do investimento direto cobriu apenas 71% do déficit.

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segunda-feira, julho 26, 2010

Eleições 2010

Procuradoria impugna mais 16 candidaturas em São Paulo

FLÁVIO FERREIRA na Folha.com (original aqui)
A Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo impugnou mais 16 pedidos de candidatura por considerar que os postulantes se enquadram na Lei da Ficha Limpa. Um dos impugnados pediu registro de candidato a vice-governador, três tentam ser candidatos a deputado federal e 12 a deputado estadual.

O candidato a vice-governador impugnado é Aldo Josias dos Santos, do PSOL.

Dentre os postulantes a deputado federal, estão os nomes de Renato Amary (PSDB) e Guilherme Campos Júnior (DEM), que tentam a reeleição.

Entre os que tentam uma vaga na Assembleia Legislativa, foram impugnados Edmir Chedid (DEM), João Caramez (PSDB) e Mauro Bragatto (PSDB). Cada um deles detêm atualmente um mandato de deputado estadual.

Outro nome neste lista é o de Maurício de Oliveira Pinterich (PSDB), que foi subprefeito em São Paulo.

Com as impugnações divulgadas hoje --a segunda das quatro listas que a Procuradoria vai fornecer--, o número total chega a 31, já que na semana passada o Ministério Público Eleitoral já havia barrado 15 pedidos de registro.

Após as impugnações, os casos são julgado pelos TREs e em seguida pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Confira a lista dos impugnados nesta segunda lista:

Vice-governador

Aldo Josias dos Santos - PSOL

Deputado estadual

Edmir Chedid - DEM
João Caramez - PSDB
Mauro Bragatto - PSDB
Maurício de Oliveira Pinterich - PSDB
Gilberto Macedo Gil Arantes - DEM
Nézio Luiz Aranha Dartora - PSDB
Raimundo Taraskevicius Sales - Coligação PSDB/DEM
Ataíde Souza Pinheiro - PSOL
Paulo Henrique Pastore - PTC
Ricardo Rodrigues Peirera - PC do B
Estevão Galvão de Oliveira - Coligação PSDB/DEM
José Luis Ribeiro - PSDB

Deputado Federal

Airton Garcia Ferreira - DEM
Guilherme Campos Júnior - DEM
Renato Amary - PSDB

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Entretenimento

Corridas e corridas

Sidney Borges
Vou dar um pitaco fora da minha praia. Não acompanho Fórmula 1. Houve época em que cheguei a gostar desse espetáculo midiático que alguns entendem como esporte. Eu apreciava a habilidade de pilotos como Senna, Prost, Piquet, Emerson e gostava de ouvir os mais velhos tecendo louros aos feitos de Fângio.

Conduzir um carro a mais de trezentos quilômetros por hora não é para qualquer um, requer reflexos, coragem e muita técnica. Ontem, por acaso liguei a televisão e vi um piloto deixar outro passar para fazer jogo de equipe.

Não gostei. Ninguém gostou.

A manobra de bastidores privou o público do duelo que mediria a perícia de dois pilotos regiamente pagos.

Fiquei frustrado a ponto de saber que não vou mais acompanhar Fórmula 1, jogo de cartas marcadas. Se deve prevalecer o carro, sugiro aos decadentes milionários que comandam a farsa que tirem os pilotos e façam um autorama gigante. Vai empolgar tanto quanto a corrida de ontem quando milhões foram feitos de palhaços.

O menino Massa talvez não saiba, mas a história do "jogo de equipe" não colou. Dou um exemplo de como reage a massa tupiniquim.

Na Copa do Mundo de 1954, na Suíça, o Brasil perdeu de goleada da Hungria e foi eliminado. Quatro a dois. Quem viu afirma que foi um jogo digno do talento de Felipe Melo, da medalhinha para baixo valia até tesoura voadora.

Na saída do campo o hungaro Czibor resolveu tirar uma com a cara dos brasileiros. Estendeu a mão para Maurinho, ponta direita do São Paulo que embora cabisbaixo pela derrota fez jus ao brasileiro cordial de Sérgio Buarque de Holanda e também estendeu a mão. 

O gringo tirou a dele e começou a rir.

A diversão durou pouco, um direto no estômago e uma esquerda na fuça espirrou sangue na parede e deu início à batalha campal. O conflito resultou num talho na testa do vice-ministro de Esportes da Hungria, Gustav Sebes e muita dor de cabeça ao delegado suíço de plantão que teve de ouvir os depoimentos dos brigões. Em Húngaro e Português. Ave Maria!

O Brasil não deixou barato, protestou na Fifa contra o complô soviético para levar a Jules Rimet.

Quando os jogadores voltaram foram recebidos como heróis. Até Luís Carlos Prestes, comunista de carteirinha, aplaudiu a bravura nacional. Perder é contingência do futebol, acovardar-se é coisa de fracos.

Depois da corrida de ontem a imagem de Felipe Massa distanciou-se anos-luz de Senna e Piquet. O simpático menino rico perdeu a chance de ser ídolo. Mas não será hostilizado, sempre haverá um sorriso de complacência homenageando seu talento.

Ele que vende pneus tão bem!

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Coluna do Rui Grilo

Todos juntos somos fortes

“Todos juntos, somos forte
Somos flecha, somos arco
Todos nós no mesmo barco
Não há nada pra temer”

Rui Grilo
O estribilho dos “Saltimbancos”, peça infantil de Bacalov e Chico Buarque, resume a mensagem da peça : separados estamos mais sujeitos à coação, à opressão e à dominação. Perante um inimigo mais forte e que quer se prevalecer do seu poder para nos explorar, temos que juntar as diferentes capacidades. Na peça, cada um dos animais – o gato, a galinha, o jumento e o cão – tinha uma arma de defesa diferente – as unhas, o bico, as patas e os dentes.

Essa peça foi muito difundida como uma crítica à ditadura no Brasil e em outras partes do mundo. Nessa situação, a história desses animais foi um chamamento à união e a união contra os ditadores.

A ditadura explícita acabou mas os governantes, ao invés de usar seu poder em benefício da população, continuam a usar para favorecer aqueles que os apóiam e contra aqueles que os criticam, como uma forma de conquistar a maioria e calar a oposição através do medo da retaliação.

Circula aqui em Ubatuba um jornaleco cujo principal objetivo é divulgar louvores à administração e tratar a oposição de uma forma pejorativa de maneira a destruir sua imagem colocando-a em situações vexatórias. É interessante que ele quase não tem propaganda explícita e é distribuído gratuitamente, o que nos leva a imaginar de onde vem os recursos , pois jornais mais sérios tem muita dificuldade em sobreviver.

Se fosse caiçara ficaria muito incomodado com o nome pois com esse nome e com seu conteúdo está vinculando a cultura caiçara à maledicência e à fofoca.

Na edição de 08/07/10 ele se volta contra um proprietário de uma escola dando a entender que é mal intencionado, ingrato ou de memória curta por ter criticado o prefeito, justo ele que foi beneficiado com o asfalto na frente da escola. Como se a conservação das ruas não fosse uma obrigação do bom administrador e um direito do cidadão. Por aí se vê a mentalidade dessa publicação, em que o serviço prestado pela administração é um favor que compraria a consciência de quem recebe, impedindo a livre manifestação de suas idéias.

Apesar dessas iniciativas de coação, cada vez mais é necessário colocar a boca no trombone se quisermos um município com melhor qualidade de vida, principalmente porque aqueles que elegemos para fiscalizar o executivo, além de não cumprirem com o seu papel, também estão envolvidos em ações que estão sendo investigadas pela justiça.

Mas é bom destacar que, se a ação da justiça traz alguma esperança, ela só se mobilizou a partir das denúncias feitas por cidadãos que se uniram e venceram o medo de retaliações.

Rui Grilo
ragrilo@terra.com.br

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Opinião

Romper o círculo da pobreza

Editorial do Estadão
Um dos aspectos mais dramáticos do relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) sobre o nível de desenvolvimento humano dos países da América Latina não é a confirmação de que, no que se refere à distribuição da renda, a região continua sendo a mais desigual do planeta - e, apesar das melhoras dos últimos anos, o Brasil, na comparação com os demais países, tem a terceira pior situação do mundo. O que torna a questão muito mais grave é o fato de que, nas últimas décadas, as várias ações colocadas em práticas pelos diferentes governos, sob diferentes regimes políticos, não conseguiram evitar que os problemas da desigualdade e da pobreza se repetissem de uma geração para a outra.

Impera na região uma espécie de lei social perversa, por meio da qual, como diz o documento do Pnud, "a desigualdade reproduz desigualdade, tanto por razões econômicas como de economia política, e gera um acesso desigual ao sistema de representação política e à possibilidade de se fazer ouvir". Os níveis de escolaridade ou de renda de uma geração estão correlacionados com os da geração anterior. É como se filho de pai pobre já nascesse condenado a viver na mesma situação de seus ascendentes.

É, reconhece na apresentação do relatório o subsecretário-geral da ONU e diretor regional do Pnud para a América Latina e Caribe, Heraldo Muñoz, "um círculo vicioso difícil de romper". Mas, otimista, Muñoz afirma em seguida que "sim, é possível reduzir a desigualdade na América Latina e no Caribe". Mostrar o caminho para isso é o objetivo central do estudo que tem o sugestivo título de Atuar sobre o futuro: romper a transmissão intergeracional da desigualdade.

Para examinar mais detidamente a questão das desigualdades de renda, educação e saúde na região, os pesquisadores desenvolveram um índice especial - o Índice de Desenvolvimento Humano ajustado à Desigualdade, IDH-D, que não pode ser comparado ao IDH tradicionalmente divulgado pelo órgão (o de 2010 sairá em outubro), por causa da metodologia diferente. Depois de avaliar o grau de desigualdade nos países da região e comparar esses resultados com os dos demais países do mundo, utilizando a mesma metodologia, o relatório constatou que, dos 15 países em que é maior a distância entre ricos e pobres, 10 estão na América Latina e no Caribe.

Uma das conclusões do relatório é que, na região, a falta de acesso aos serviços básicos de infraestrutura, a baixa renda, além de uma estrutura fiscal ineficiente para reduzir as desigualdades e a falta de mobilidade educacional entre as gerações reproduzem o quadro da distribuição muito desigual de rendimentos entre as famílias.

Constata-se que, desde a metade do século passado, apesar das diferentes políticas adotadas pelos governos da região - com mais ou menos intervenção do Estado na economia, com mais ou menos liberdade para a ação empreendedora, com menor ou maior grau de abertura política -, a desigualdade tem sido "alta, persistente e se reproduz num contexto de baixa mobilidade social".
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Manchetes do dia

Segunda-feira, 26 / 07 / 2010

Folha de São Paulo
"Maioria já deu, levou e é contra proibir palmadas"

54% dos entrevistados discordam do projeto de lei; 72% foram castigados, revela Datafolha

A maioria dos brasileiros já apanhou dos pais, já bateu nos filhos e é contra o projeto de lei do governo federal que proíbe palmadas, beliscões e castigos físicos em crianças, conforme pesquisa feita pelo Datafolha. Enviada ao Congresso no começo deste mês, a proposta "estabelece o direito da criança e do adolescente de serem educados e cuidados sem o uso de castigos corporais ou de tratamento cruel ou degradante". Disseram ser contra o projeto de lei do presidente Lula 54% dos 10.905 entrevistados, enquanto 36% revelaram concordar com a mudança. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos. Segundo o levantamento, meninos costumam apanhar mais, e as mães (69%) batem mais do que os pais (44%). No total, 72% disseram ter sofrido castigo físico - 16% afirmaram que isso acontecia sempre.

O Estado de São Paulo
"Valor das lavouras no PIB rural quadruplica"

Renda bruta da agricultura passa de R$ 23,3 bilhões para R$ 108,1 bilhões, mostra análise da FGV

A participação da agricultura no valor bruto da produção do campo, incluindo silvicultura, saltou de 45,4% para 75,1% em dez anos. Ao analisar os dois últimos censos da agropecuária brasileira - 1996 e 2006 -, economistas da Fundação Getúlio Vargas concluíram que, em termos absolutos, o valor nominal das lavouras mais do que quadruplicou no período: era de R$ 23,3 bilhões em 1996 e passou para R$ 108,1 bilhões em 2006. Destaque para o milho que, em dez anoS, perdeu 5,9% da área plantada, mas teve 65% de aumento na produção. A pecuária, porém, teve aumento relativo bem menor na década: de R$ 18,3 bilhões para R$ 28,8 bilhões. E a participação do setor na produção rural caiu de 35,6% para 20% no mesmo período.

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domingo, julho 25, 2010

Coluna do Mirisola

Um novo animalzinho no zoológico

“O viadinho cultural é sintoma de uma época, assim como a grã-fina com narinas de cadáver e o padre de passeata foram sintomas e personagens para Nelson Rodrigues nos sixties”

Marcelo Mirisola*
Olá, Marcelo,

Sou estudante de jornalismo da UFRJ, e integrante do projeto Rumos Jornalismo Cultural do Itaú Cultural. Estou realizando uma reportagem, sob orientação de José Castello, na qual eu acredito que você se encaixaria. Eu queria, se possível, realizar uma entrevista com você. Poderia? queria, seria melhor, se fosse pessoalmente... teria como?

por favor, diga que sim! rs

Brigadão, aguardo contato,

abs,

Rafael

Oi, Rafael. Tudo bem?

Eu preferia por email. Mesmo porque na terça-feira embarco pra Florianópolis, e de lá vou pra São Paulo, onde devo ficar uns quinze dias. Portanto só devo voltar ao Rio lá pro dia 20 de julho. E também tenho umas experiências confusas com entrevistas em mesa de bar, primeiro que bêbados não pensam direito, e falam pior ainda. E depois as transcrições são grotescas: tipo Bataille vira Gattai, entende? Manda as perguntas por email, que eu terei o maior prazer de responder, sobretudo em se tratando do Itaú, um lugar que sou devedor e adoro meter o pau.

Abraço,

MM

--- Em dom, 20/6/10, XXXXXXXXX escreveu:


De: Rxxxxxxxxxxxx


Assunto: entrevista


Para: marcelomirisola@yahoo.com.br


Data: Domingo, 20 de Junho de 2010, 12:19

E´ que para essa reportagem teria que ser pessoalmente- ou, no mínimo, por telefone. É o seguinte: a matéria é sobre escritores performáticos. E acreditamos que você se insira nessa categoria. Dessa maneira, por email, não tenho como perceber a sua persona, sabe...

rs

até antes de você viajar não tem como marcar nada, não? o importante da entrevista é o conceito geral, não exatamente o que você falar literalmente... ou seja, não haverá problemas com transcrição, até porque antes de publicar eu vou te mostrar... só quero conhecer o escritor- ou seu personagem, ou os dois... hehe.

Nem por telefone? posso ligar quando você estiver em Floripa ou em São Paulo, por exemplo. Será uma breve entrevista, onde você poderá refutar essa idéia de que você seja performático: por isso, é importante senti-lo ( no sentido mais inocente possível...)

please!

abs,

Rafael

*****

Como os leitores do Congresso em Foco podem perceber, o garoto insistiu. Além desses dois, mandou outra meia dúzia de e-mails. Eu adiei até onde consegui, achei que os pleases! e hehe que ele usava no final dos parágrafos eram péssimos agouros. Até que marcamos na frente do Cine Odeon, na Cinelândia, três dias depois que cheguei ao Rio.

Um garoto de 19 anos. Sei lá, agora me dá pena. Mas ele encheu tanto meu saco, insistiu, queria a entrevista a qualquer custo. Eu fui lá, apesar de saber o resultado da equação. Que é matemática pura. Vejam só. Cultural + Projeto + Pesquisa = um viadinho ou um picareta no rabicho, geralmente um viadinho picareta. O viadinho cultural. Apesar dos pleases! e hehe, resolvi dar uma chance. Sou cristão e não consigo perder a piada, fazer o quê?

Antes de falar sobre o desastre que foi nosso encontro, quero dizer duas coisas.

1. O “viadinho cultural” é sintoma de uma época, assim como a grã-fina com narinas de cadáver e o padre de passeata foram sintomas e personagens para Nelson Rodrigues nos sixties. Eis que surge um novo animalzinho no zoológico. Só isso. Espero que os patrulheiros entendam, e, se não entenderem, fodam-se também.

2. Quero dizer que esta crônica não é necessariamente um esporro endereçado ao garoto, embora ele mereça, mas um recado para quem está doutrinando esses coitadinhos que estudam Jornalismo. A coisa vai mal, muito mal. E, apesar do constrangimento por que passei, decidi preservar o sobrenome e o e-mail do Rafael. Quero acreditar - ou me iludir - que ele está apenas começando. Que ele ainda não conhece Artaud, que a alma dele não pode estar arriada com 19 anos de idade, que ele é só um garoto.

*****

- Trabalha pro Itaú, né garoto?

- Itaú Cultural.

- Pior. Se fosse caixa de banco, eu respeitava.

Mas, você quer saber o que eu penso? Nenhuma novidade, além do fato de que da noite pro dia você pode acordar empregado do Waltinho Salles. Veja o meu caso. Agora, o provedor do Congresso em Foco é o UOL. Não acho nada improvável que Waltinho seja acionista ou que indiretamente dê seus pitacos no grupo Folha. O que isso quer dizer? Bem, que você, garoto, vai procurar fazer um trabalho impecável e desumano, e que vai tentar a todo custo disfarçar sua parcialidade, e que eu – pra variar... – estou e estarei aqui dando motivos para ser demitido por justa causa. Viu? Nenhuma novidade. Tá tudo publicado no sítio onde escrevo, aliás publicado e republicado.

- Em certos casos, sou a favor do trote. Não te pegaram, né?

Ele arregalou os olhos, e então eu comecei:

Performance é a putaqueopariu.

Você já ouviu falar do “futuro consumado”? Um novo verbo (o qual me recuso a conjugar) usado pelos seus coleguinhas jornalistas tanto para eleger o melhor longa-metragem do próximo ano como para eleger o próximo presidente da República. Às vezes funciona. No século passado, tentei explicar, chamávamos isso de jogo de cartas marcadas. Jogo sujo. Nem sei qual é o nome que se dá hoje em dia. Devem ter inventado um eufemismo, uma palavra (em inglês, de preferência) para dar um ar de sofisticação à velhacaria de sempre, sei lá, alguma coisa do tipo Piauí ou On the road mesmo, um jargão qualquer que evidentemente não serve para dar nome aos bois, mas é muito eficiente para enganar a vocês mesmos e a nosotros, os trouxas de sempre.

Ou seja, da mesma forma que manipulam a alma dos crédulos e as informações em geral, os banqueiros líricos projetam a taxa selic de juros e decidem quem será o próximo presidente da República, mais ou menos assim. Projeto Rumos, né garoto? Só se for rumo ao controle absoluto.

Ele abriu a boca e disse: “per..” Tive que interrompê-lo. Nem dentro e nem fora do texto, garoto. Isso – eu tentava explicar – era uma bobagem, decerto tese de algum acadêmico frustrado que, apesar da chancela dos iguais, jamais conseguiria ser escritor (conheço bem os tipinhos)... esses canalhas, que geralmente fazem parte de alguma comissão viciada, tentam transformar os poucos escritores que sobraram em seus miquinhos ilustrados, destarte e alhures, garoto, eu o aconselho (além de me acompanhar no uísque) a pular fora dessa barca furada.

Ele pediu uma H20. Antes de terminar de falar “formance”, adiantei que esse papo decorado na sala de aula estava me cheirando a falcatrua; primeiro – eu disse – transformam o sujeito num bom louquinho, depois em folclore e por último o desqualificam e o esquecem. Ou é isso, ou o pobre coitado tem a opção de trabalhar pro Waltinho Salles, se dependurar em ganchos e desfilar de terno de linho branco e chapéu panamá no festival de Paraty. E se ele for muito rebelde – completei –, é capaz de arrumar um emprego de VJ na MTV.

Escuta isso aqui. Sou monoglota, heterossexual, a favor da bigamia pra mulher dos outros e tem gente mal informada que acha que, além desses atributos, também sou um troglodita. Mas conservo meu lirismo e tenho meus contatos. Em Nova York, Madri, Paris e no Bar do Neco, que fica na ponta do Sambaqui, em Florianópolis. Nessa idas e vindas, minhas crônicas chegaram a mme.X, amiga sabe de quem? Ninguém mais ninguém menos que Lou Reed, que – veja só como são as coisas – acabou, via mme.X, virando meu leitor no Congresso em Foco. Ninguém vai acreditar nessa história, mas que se dane. Resumindo: ele percebeu a putaria que é Paraty, e caiu fora a tempo – para quem não sabia, foi este o “motivo pessoal” de o cara ter desistido do arraial da Cia. das Letras: Walk On The Wild Side.

Mesmo depois dessa revelação, o viadinho recusou o uísque que lhe ofereci. Mas queria porque queria falar em “performance”. Havia entrevistado Marcelino Freire e marcado uma hora com Santiago Nazarian. Eu lhe sugeri o nome de Fabrício Carpinejar e o ameacei de morte caso me incluísse nesse balaio. Quem não gosta do Marcelino? A mesma coisa vale pro Carpinejar, os dois são meus amigos, embora haja uma diferença aí: o primeiro é um adorável e rematado picareta e o outro um escritor de talento que não precisa se pendurar em ganchos para aparecer: vocês chamam isso de performance, né?

Entenda uma coisa, garoto. Um livro não precisa virar filme para ser um livro. O livro, inclusive, dispensa o próprio autor depois de escrito, um livro é um livro, por isso que, entre outras coisas, os autores morrem. Uns, inclusive, enchem a cara antes de morrer. Os livros existem por si mesmos e se bastam, coisa simples: sabe há quanto tempo Dostoiévski bateu as botas? Você acha que Memórias do subsolo não devia existir porque o autor não está aqui para dar cambalhotas na frente de uma plateia de peruas deslumbradas que não têm mais nada o que fazer da vida?

- Performance é o escambau, garoto.

E não tem mais, nem meio mais, você acha que jogar sinuca é performance? E chupar cu de mulata? Nesse momento, ele fingiu que não entendeu, e eu fiz questão de ser objetivo e explícito: escritor que é escritor, eu disse, não precisa fazer projeto, nem pesquisa, não precisa de planilha nem de cronograma, muito menos de performance, estou sendo claro ou será que você vai me reprovar porque, além de funcionário do Itaú, você também é da comissão que analisa projetos literários na Petrobras?

A única obrigação de um escritor, garoto, é não se omitir diante da vida, basta não ter medo das palavras, e isso inclui – entre outras drogas leves e pesadas – arrumar um bom parceiro para um eventual bilhar na madrugada. Mas não é só isso. Não é só gritar e blasfemar diante da nossa própria insignificância: às vezes, também, é bom agradecer ao Papai do Céu pelo fato de que você não terá de perdoar seus inimigos naqueles interlúdios desfrutados dentro do rabo de uma negra chamada Brisa. A fração mágica.

Ou o cavalo encilhado que vai passar na frente de todo homem, pelo menos uma vez na vida, garoto.

- Já ouviu falar do casamento do céu com o inferno?

O uísque descia macio. Aproveitei para pedir mais uma dose e uma porção de frango a passarinho e avisei que o patrão dele ia pagar a conta, foda-se que você é um estudante (deixei isso implícito): porra, garoto, você me enche o saco, faz eu sair de casa na hora do programa do Ratinho, e depois não quer pagar a conta? Ou será que você pensa que a conta virá em forma de performance?

Para esses pirilampos, tudo é performance, o garçom também devia estar fazendo uma quando me trouxe outra dose de uísque. Aí, ele me falou de uma tal de Paula Parisot. Amiga dele, que ficou uma semana trancada num aquário na Livraria da Vila, em São Paulo, bancando a louca com o intuito de promover um romancezinho meia-boca que eu não havia lido e que jamais iria ler.

- O que eu tenho a ver com essa palhaçada, garoto?

Nesse momento, pensei: “Peguei pesado”. Ele me disse que tinha 19 anos, embora com essa idade meu afilhado já tivesse roubado o próprio pai para pagar um aborto. Ora, com 19 anos Rimbaud já havia concluído sua obra, e o Bruno – o garoto do blogue Bruno Bandido, que escreve feito um demônio, não o ex-goleiro do Flamengo – já é safo e bandido há muito tempo.

Não, eu não estava pegando pesado. Um garoto com essa idade devia se interessar por Kerouac e Bukowski, ou, se não quisesse ser tão radical, devia estar depredando bancos e não trabalhando num Itaú Cultural da putaqueopariu. Pensei nisso e também pensei que, nos momentos de cinismo e depressão, o tipinho devia consultar o horóscopo em vez de ir às vias de fato com Lautréamont e Artaud, e – o mais grave – nos momentos de fúria e viadagem devia extravasar sua libido com Belle & Sebastian em vez de recorrer a Francis Bacon, Madame Satã e Mapplethorpe.

Aí, ele me pediu licença pra ir ao toalete retocar a maquiagem,e eu pensei: não tenho nada a ver com a viadagem desse garoto. Emendei um pensamento no outro e cheguei a uma conclusão tão óbvia que me irritei comigo mesmo: hoje em dia qualquer mané é viado e qualquer viado é inteligente. Sim, basta pedir uma H20 e dois canudinhos, espetar o cabelo, cruzar os gambitos e sair por aí fazendo “pesquisas e entrevistas culturais”.

Nenhuma frase genial. Nenhum aforismo, nenhum oxímoro, nenhum sofismazinho besta pra distrair e/ou enganar a gente. Nada, nada. Depois que inventaram o KY qualquer idiota se traveste de Wanderléia e vira rainha da parada gay, e estamos conversados. A verdade é que o lubrificante acabou com a culpa, que era o que eles – e toda a população cristã ocidental – tinham de melhor. Tá fácil demais. Onde está a subversão? Qual a finalidade política de ser viado? Pior: viadinho cultural?

Truman Capote precisou seduzir um condenado à morte e traiu o amor do infeliz para terminar sua obra-prima. Antes, as bichas impunham-se pelo sacrifício que era sinônimo de vida e obra. Existia um aura metafísica e subversiva. O lugar era maldito por excelência. Proust remoeu sete volumes de frescura e viadagem para ser engolido pelo próprio cu que o pariu. Exauriu-se. Oscar Wilde foi parar na cadeia, pra quê? Pro sujeito pedir uma H20 e vir falar em performance pra mim?

Queria ver esse merdinha nos sul dos EUA nos anos 50 do século passado: “Você alguma vez reparou no esqueleto de uma ave? Se viu, sabe que elas continuam mortas em pleno voo”, dizia Tennessee Williams a Gore Vidal, que o chamava de “Glorious Bird”, uma ave gloriosa abatida por barbitúricos, anfetaminas, álcool, internações em hospícios e pelos Wasps daquela época. O fizeram culpado. Culpa! A culpa era paradoxo e combustível de Tennessee Williams: sem culpa, ele não teria escrito Um bonde chamado desejo. Mas isso era muita areia pro caminhãzinho do rapaz, que foi ao toalete retocar a maquiagem.

- Não, obrigado. Vou tomar H2O.

Esse fulano, eu pensava, não deve nem tomar no cu. Uma criatura dessas não tem ideia de quem foi Reinaldo Arenas e provavelmente não leu as cartas aidéticas geniais de Caio Fernando Abreu. Viadinho cultural.

Mas, péra aí. Que diabo passava na minha cabeça? Só me faltava elaborar uma cartilha para ensinar o cara a ser viado-macho e genial e cheio de culpa nessa vida de merda. Ora, logo eu?!

Taí uma questão que não me dizia respeito, em absoluto. O José Castello, que era o orientador estético, espiritual e sentimental dele, que resolvesse; portanto, o garoto até podia ser um pouco ingênuo, vá lá, mas isso não queria dizer que não estivesse patentemente mal intencionado e redundantemente mal dirigido: não falei nada, mas imagino que meu rosto tenha se contorcido de deboche e sarcasmo, algo muito diferente – com certeza – das musiquinhas que ele ouvia no seu MP3 rosa-choque, mas apesar de tudo, fui gentil, muito gentil: logo que ele chegou do “toalete”, insisti no uísque, e ele – claro – preferiu continuar tomando H2O no canudinho.

Caros leitores, queridas leitoras, tive paciência, eu juro, então eu disse, didaticamente, que o Rubem Fonseca, aquele velho sacana que saiu do Rio e foi até São Paulo pra dar sushi na boca da alpinista literária, a tal de Paula Parisot, estava apenas interessado em chupar a xota performática dela e, enfim, depois que lhe disse que a “performance” da amiguinha dele deixou o departamento de marketing da editora Leya feliz da vida e antes de lhe explicar como é que se abria uma retroxota com a ponta da língua, ou seja, no melhor da entrevista, o garoto, sublinhe-se estudante de Jornalismo, teve um chilique: ele me acusou de não entender nada de performances e artes plásticas, eu lhe disse que era exatamente por causa disso que escrevia livros, falei para ele criar vergonha naquela cara, e disse que, além de ingênuo, ele estava começando muito mal na profissão (talvez arrumasse um estágio com o Marcos Strecker, aquele jornalista que anda dizendo por aí que On the road é o melhor filme de 2011...) e que o pior não era seu chilique nem o fato de beber H20 de canudinho e ouvir Pato Fu no MP3 rosa-choque, mas o pior de tudo consistia no fato de que ele provavelmente estava sendo manipulado por alguém que detestava literatura. Talvez, como sensitivo que era (releiam o e-mail supra), percebeu que a minha “performance” e minha “persona” não correspondiam exatamente ao figurino cor-de-rosa que imaginava: o corpinho mirrado dele tremia todo em cima da cadeira, me chamou de “nojento”, assim mesmo separando as sílabas, e repetiu: “no-jen-to”, ui, e garantiu que ninguém me lia porque eu não sabia me comunicar, bingo! – soluçava copiosamente. Fiquei meio frustrado, confesso. Justo no momento que eu ia imitar o King Kong comendo sushi, ele foi embora.

Logo que o garoto ajeitou a bolsinha nos ombros, e um pouco antes de ir embora aos prantos e – desculpem o pleonasmo – rebolando, lembrei da ocasião em que tirei um Hare-Krishna do sério: o monge queria sair no braço comigo, e eu – vejam só – considerava esse meu feito insuperável. Nunca podia imaginar que faria um jornalista (tudo bem, estudante de Jornalismo da UFRJ) sair chorando de uma entrevista, me superei. Espero que da próxima mandem alguém mais safo e experiente. Não foi dessa vez que o projeto Rumos Itaú Cultural me pegou.

Quem pegou o rumo foi o vermezinho, o rumo da casa da Barbie. O putinho foi embora e não pagou a conta. Pedi mais um red pro garçom, e pensei comigo mesmo – foda-se, estou no lucro. Foi embora, né? Não pagou a conta? Pois bem, ganhei uma crônica e mais uma personagem. Agora, quero ver o dia que esse sujeitinho tiver que ir entrevistar o Macarrão (amigo e sócio do goleiro Bruno) no presídio de Presidente Bernardes. Como é que vai ser? Vai sair correndo no meio da entrevista? Será que também vai ficar chocado com a performance e os métodos do assistente do psicopata? Aliás, Macarrão é um puta nome pra assistente de bandido, muito bom mesmo.

* Considerado uma das grandes revelações da literatura brasileira dos anos 1990, formou-se em Direito, mas jamais exerceu a profissão. É conhecido pelo estilo inovador e pela ousadia, e em muitos casos virulência, com que se insurge contra o status quo e as panelinhas do mundo literário. É autor de Proibidão (Editora Demônio Negro), O herói devolvido, Bangalô e O azul do filho morto (os três pela Editora 34) e Joana a contragosto (Record), entre outros.

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