sexta-feira, dezembro 31, 2010

31 / 12 / 2010


Último dia!

Sidney Borges
O ano acabou. O governo Lula acabou. Brindo a isso! Que venha o novo, alegria do povo!

Acredite se quiser

Mutações

Sidney Borges
Leio na internet que um ladrão procurado pela polícia disfarçou-se de mulher e acabou preso. Aconteceu em Minas Gerais. Ao tomar conhecimento do fato a reportagem do Ubatuba Víbora (blog investigativo, insinuante) apurou, de fontes fidedignas, que ele tentou repetir o feito da mãe, que antes de ser mulher também era ladrão. Depois de um assalto travestido, Zelão gostou da aparência, continuou mulher, casou-se, teve três filhos e, hoje, viúva, mantém um abrigo para gatos abandonados. Ninguém imagina que a simpática Dona Zélia é, na verdade, o temido Zelão, ladrão, arrombador e vigarista.

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Em que anos estamos mesmo?

Ramalhete de "causos"

O buraco do negro

José Ronaldo dos Santos
A cada passagem de ano me recordo do que eu contarei a seguir. É triste, mas creio que deve ser rememorado, pois pode servir como oportunidade de revisão de vida, sobretudo quando estamos aguardando outro ano com muitas chances para importantes acertos em busca da felicidade.

“Eu conheci muita gente que era escrava”. Com essa frase, a minha avó Martinha, a minha contadora de causos favorita, da praia do Pulso, me contou da escravidão na região sul do município. Quando eu perguntei ironicamente se eles –os escravos - sofriam muito, a vovó ergueu a voz:

“É claro que eles sofriam! Tinham que trabalhar em qualquer condição: quer o céu virasse água, quer o sol esturricasse. De vez em quando apanhavam por nada ou pouca coisa. Dormiam bem dizer no chão, em esteiras puídas, cheia de pulgas, carrapatos e outros bichos. Sofriam demais! Os mais velhos contavam de situações de partos das negras em aceiros de roçados, na Caçandoca, onde as crianças já viam a claridade do mundo recebendo esfolamentos nos delicados corpinhos, entre tralhas dos batatais e ramas dos mandiocais. Não é isso sofrimento? E diziam também coisas medonhas dos alimentos servidos a essas criaturas. Era um cozido de qualquer jeito, levado em grandes caldeirões para a roça onde os coitados suavam. Aquilo era servido em folhas de caetê ou de taioba; usavam as mãos, comiam lambendo aquele engorolado como bichos. No sertão da Caçandoca, quase perto do lugar onde morava a família do Silvário Conceição, tem uma pedra que até hoje é conhecida como Pedra da Comida. Lá, segundo a minha avó, sobre folhas espalhadas, como se forrassem a superfície, a comida era derramada para que os escravos aliviassem a fome. Os negros que estão por aí hoje são uns vencedores; conseguiram passar por provas que pouca gente consegue. Uns morriam porque os corpos não aguentavam tantas dores e doenças; falavam de uma epidemia de papeira que castigou demais esses coitados”. Perguntei o que é isso de papeira. Vovó explicou que hoje essa doença tem o nome de caxumba. Depois ela continuou: “Outros, devido à saudade da terra natal, dos parentes e amigos que lá deixaram, além da separação da própria família, preferiam o banzo; morriam de tristeza. Achavam melhor morrer do que viver uma vida que não era vida. Houve ainda aqueles que corajosamente acabavam rapidamente com a própria vida. Imagine o tamanho do sofrimento capaz de chegar a esse ponto! Ali, entre o Pulso e a Caçandoca, na costeira, está o Buraco do Negro, onde muitos escravos se jogaram para abreviação dos sofrimentos. Caíam com a cabeça na pedra e morriam na hora. E lá ficavam porque o dono não se importava em enterrar quem lhe impediu de ter mais lucros. Tinha um pescador, por nome de Manoel dos Santos, que se compadecia; com muita dificuldade, entre as pedras, recolhia defuntos na escuridão, carregava até o cemitério da mata da Raposa e lá sepultava o infeliz. O próprio Manoel, num dia primeiro de ano, depois de perder a companheira para o capataz da Fazenda dos Morcegos, também buscou o seu fim naquele buraco. Depois disso, a cada principiar de ano, as pessoas do lugar saíam em procissão em honra ao bondoso homem, chamado depois disso de São Manoel do Buraco. A costeira ficava cheia de flores e iluminada por fifós na virada de cada ano. Hoje isso não acontece mais”.

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Oi

Coluna do Celsinho

Em frente...

Celso de Almeida Jr.
Não se trata de rejeitar as iniciativas de nosso prefeito e sua equipe.
Desejo sucesso em seus projetos.
Não há porque torcer para dar errado.
Aliás - tenho certeza - não é este o desejo de todas as vozes críticas da cidade.
O problema central é que nenhum de nós, incluindo as autoridades, detém a verdade absoluta.
A questão é que aqueles que exercem o poder precisam aprender a admitir quando as coisas não vão bem.
Essa franqueza permitiria que novas vozes contribuíssem com suas ideias, sugestões, contatos e outras propostas.
Assim, continuo com minhas observações na esperança de que o grupo que cerca o prefeito consiga sensibilizá-lo para as causas maiores; evitando desgastes e confrontos improdutivos.
Esta é, também, uma tarefa importante para nossos vereadores.
Eles são as mais legítimas vozes da sociedade organizada.
Também têm a força do voto e a autoridade necessária para a correção de rumo.
Vamos lá...
Não tenho absolutamente nada contra projetos como o Super Verão.
A pergunta que fica é: precisava ser na avenida Iperoig?
Ao concentrar tudo na orla, num espaço apertado, com parquinho, pista de gelo e tudo o mais, temos a impressão de um arranjo mal feito, sem planejamento, desconsiderando estacionamento e segurança.
Espera aí...
Antes de começar a me espinafrar, pense comigo.
Temos ou não temos outros espaços mais apropriados?
A mesma crítica já fiz quando definiram a construção do teatro no espaço do antigo cinema.
Teremos os mesmos problemas de estacionamento, sendo que poderíamos levar esta construção para outro bairro, gerando desenvolvimento, criando novo espaço cultural, deslocando a concentração exagerada da região central.
Não vou, também, tecer comentário sobre a qualidade das bandas que animarão o nosso verão. Gosto não se discute.
Acredito, porém, que seria muito mais interessante definirmos uma programação que prestigiasse a nossa história, os nossos músicos, com teatro ao ar livre, canto, show instrumental, dança.
Quando nos organizarmos para difundir os belíssimos trabalhos que já são desenvolvidos em Ubatuba daremos um grande salto quanto à valorização de nossa gente.
O turista, sensível, perceberá esse diferencial e aplaudirá a iniciativa.
Vamos em frente, amigos leitores.
Na esperança de um ano novo mais solidário e com pensamentos mais arejados.
Feliz 2011!

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Manchetes do dia

Balanço final

O Estado de S.Paulo - Editorial
A era Lula - que pode, ou não, ter chegado ao fim neste 31 de dezembro - foi um período único na história da República. À parte as razões mais óbvias disso, a começar da singular trajetória do presidente e de sua excepcional aptidão para se fazer idolatrado pela maioria dos brasileiros, o ciclo de oito anos que se encerra formalmente hoje se distingue por entrelaçar o melhor e o pior que um governante eleito pelo voto popular já proporcionou ao País.

Esse entrelaçamento é o que desaconselha julgar a presidência Lula de um modo esquemático. Dela já se disse, por exemplo, que o seu lado bom não é novo e o seu lado novo não é bom. O jogo de palavras antepõe duas coisas sabidas. De um lado, o que sem dúvida foi a decisão crucial do presidente de preservar, quando não aprofundar, as linhas mestras da política macroeconômica implantada pelo seu antecessor Fernando Henrique Cardoso. De outro, a política nefasta, em escala sem precedentes, de subordinar o Estado aos interesses da confraria partidária-sindical que se converteu, graças a sua eleição, na nova elite do poder no Brasil. Ao que se soma a degradação das relações entre o Executivo e o Legislativo e a exploração deslavada do carisma presidencial.

Na realidade, a primeira metade do argumento omite que Lula não apenas teve a lucidez de manter os princípios de gestão econômica que até hoje ele chama de "herança maldita" - provavelmente o que a sua retórica teve de mais mistificador -, como ainda chefiou um governo que demonstrou ter a competência necessária para fazê-lo. Ao mesmo tempo, ele fazia valer a sua liderança para enquadrar a companheirada insatisfeita com o pragmatismo responsável na condução da economia, sem o qual, repita-se pela enésima vez, o Brasil não teria tirado o proveito que tirou de um dos maiores ciclos de expansão dos negócios globais no pós-guerra. E sem o qual, no limite, não teria sido possível resgatar 28 milhões de pessoas da pobreza extrema e alçar outros 36 milhões à classe média.

Já a segunda metade do argumento omite que o mesmo Lula, que não há de ter estado alheio ao mensalão; que não teria por que se surpreender com o vexame dos "aloprados" na campanha eleitoral de 2006; que se entregou de corpo e alma aos expoentes do atraso, do patrimonialismo e da venalidade no sistema político nacional; e que, enfim, se colocou acima do próprio Estado do qual deveria ser o primeiro servidor, ao se declarar a "encarnação do povo", nunca se dispôs a alterar a Constituição para disputar um terceiro mandato consecutivo, ao contrário do que a oposição dava como certo.

É verdade que ele se serviu desbragadamente do governo para eleger a ministra Dilma Rousseff. Mas, na soma algébrica dos prós e dos contras, ele tem a seu crédito a estabilidade das regras democráticas no País.

Outro paralelo semelhante, desse ângulo, é o da atitude de Lula em relação à imprensa. Tomados pelo valor de face, os seus virulentos ataques aos meios de comunicação expressariam uma intenção liberticida. E, no entanto, no que dependeu dele, a imprensa brasileira é hoje tão livre como no dia 1.º de janeiro de 2003. O Lula falante, por sinal, é uma caricatura do Lula governante.

Se o seu governo tivesse que ser julgado pela catadupa de palavras impróprias - e não raro mentirosas - que ele proferiu, nada mitigaria a percepção de que o Brasil viveu um período de retrocesso e de achincalhe da instituição presidencial. O problema, de novo, é destrinchar as coisas.

Os abusos verbais de Lula, às vezes à beira do impublicável, remetem ao espetáculo da política personalista e ao lado rústico de um temperamento construído sob a servidão da vicissitude. Mas as suas políticas resultaram de outro traço de sua formação - o da opção preferencial pela conciliação de interesses, que o Lula líder sindical aprendeu na mesa de negociação com o patronato. Dos beneficiários do Bolsa-Família ao grande capital, todos tiveram o seu quinhão.

Na mesma conjuntura de bonança econômica, um outro presidente poderia não ter idêntica sensibilidade para os dividendos políticos da acomodação. A simbiose de ótimo e péssimo que marcou a era Lula teve nisso o seu ponto culminante.

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Manchetes do dia

Sexta-feira, 31 / 12 / 2010

Folha de São Paulo
"Sob Lula, Bolsa tem ganho real de quase 300%"

Com exceção do dólar caderneta de poupança foi a pior aplicação, com rendimento de 21,6% em oito anos

Nos últimos oito anos, a Bolsa teve ganho real de 295% no Ibovespa, permitindo a 210 empresas captarem R$ 352,6 bilhões com venda de ações. A Bolsa superou até a renda fixa, que acompanha nos juros da dívida pública brasileira, os mais altos do mundo. A valorização da Bolsa, porém, se deve mais ao resultado de uma conjuntura global com excesso de capital e valorização de commodities – várias exportadas pelo Brasil – do que a um esforço do governo Lula para fomentar os negócios no mercado de capitais.

O Estado de São Paulo
"Lula contraria centrais e fixa novo mínimo em R$ 540"

Líderes sindicais com presença no Congresso prometem pressionar Dilma por salário de R$ 580

O salário mínimo de 2010 será de R$ 540, apesar da pressão das centrais sindicais por R$ 580. O presidente Lula já assinou medida provisória que entrará em vigor amanhã. Evitar que o valor seja elevado no Congresso será a primeira batalha da presidente eleita Dilma Rouseff no Legislativo. Embora os partidos da base governista tenham maioria, as discussões ocorrerão num clima de tensão pela disputa de espaço entre o PT e seu principal aliado, o PMDB. O presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, deputado eleito pelo PDT de São Paulo, já anunciou que fará uma emenda à MP, elevando o valor para R$ 580. “Lamento essa decisão do presidente Lula. Ele negociou durante todos os anos de seu governo, e, no último, esqueceu de negociar. Perdeu a sensibilidade.”

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Em 2011, que venha...

quinta-feira, dezembro 30, 2010

Se a moda pega...

Inspetor de corrupção na China é executado por receber R$ 8 milhões em propina

DA ASSOCIATED PRESS, EM PEQUIM
Uma ex-autoridade chinesa cuja função era investigar corrupção foi executada por aceitar quase R$ 8 milhões em propina.

A agência de notícias estatal Xinhua informa que Zeng Jinchun foi morto com um tiro nesta quinta-feira.

Ele era o mais alto inspetor do governista Partido Comunista na cidade de Chenzhou, na província central de Hunan.

A notícia afirma que Zenga foi considerado culpado de aceitar 31 milhões de yuans (cerca de R$ 7,8 milhões) em propinas em troca da distribuição de contratos de mineração e de promoções de cargo por mais de uma década, até 2006.

A corrupção é condenada até com pena de morte na China.

A execução desta quinta-feira vem um dia após representantes do Partido Comunista em Pequim terem novamente prometido ações enérgicas contra o suborno, um dos principais problemas em todo o país.

Nota do Editor - No Brasil medidas drásticas como essa não colariam. Nem poderiam colar, aqui não há corruptos. O que tem por aí é muita intriga da oposição. (Homenagem ao último dia do presidente Lula. Viva o último dia!) Sidney Borges
 
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Astros e Estrelas

R. Corradi (Isaac Newton Group), D. R. Gonçalves (Instituto de Astrofísica das Canárias)

Nebulosa Planetária

Sidney Borges
Por incrível que possa parecer aos olhos de quem observa o firmamento e contempla estrelas que guiaram navegadores vikings, fenícios e, mais recentemente, genoveses e portugueses, essas cintilantes luzes noturnas que parecem infinitas têm um ciclo de existência parecido com o dos humanos. Nascem, passam pela infância, atingem a maioridade, chegam à velhice e morrem.

O espetáculo que vemos na foto foi produzido na última etapa da vida de uma estrela semelhante ao Sol. Assim como acontece com os homens que no final da jornada já não têm energia para feitos atléticos, as estrelas anciãs vergam-se ao próprio peso. As reações nucleares de fusão que por milhares de anos equilibraram a gravidade, diminuem, já quase não há combustível para queimar.

A temperatura sobe, o Hélio que um dia foi Hidrogênio vira Carbono. A estrela sem estabilidade cresce, transformando-se em Gigante Vermelha. A partir dessa condição, até a transmutação em Anã Branca, parte considerável da massa é lançada no espaço na forma de ventos estelares. O gás expelido é aquecido a temperaturas da ordem de 10 000 ºC em função da radiação emitida pelo núcleo.

Forma-se assim um dos mais intrigantes e belos espetáculos da natureza, a Nebulosa Planetária.

A foto acima foi obtida pelo Telescópio Óptico Nórdico (NOT), situado no Observatório Roque de los Muchachos do Instituto de Astrofísica das Canárias.

Ano revolucionário...

Mundo

Hungria

Anne Applebaum-New York Times – UOL, 29
Nos últimos meses, a Hungria deu à Europa outro exemplo de quão frágil pode ser a democracia. Nesta semana, estou escrevendo sobre o resultado das eleições na Hungria. A Hungria é membro da Otan e da União Europeia, um país com partidos políticos ativos e um histórico de 20 anos de eleições livres. Em todos os sentidos que de fato importam, a transição da Hungria do comunismo para a democracia tem sido um sucesso absoluto.

Contudo, nos últimos meses, a Hungria deu à Europa outro exemplo de quão frágil pode ser a democracia– mesmo em um lugar onde ela funciona. A Hungria agora está amaldiçoada com um líder que é popular demais e que tem uma maioria ampla demais – e pode mudar as leis para se manter no poder sem nenhuma violência. De fato, quando os autores da Constituição dos Estados Unidos se preocuparam com a “tirania da maioria”, eles poderiam ter em mente Viktor Orbán, o primeiro-ministro húngaro.

Seu partido o Fidesz, controla dois terços do parlamento húngaro. Mas a vitória não era suficiente para Orbán, que usou seus anos fora do poder para tramar sua vingança contra os jornalistas que não o apoiavam, contra formadores de opinião que não votaram nele. Desde que assumiu a função há menos de um ano, ele nomeou um conselho para reescrever a Constituição, privou de fundos o órgão de auditoria nacional, e tirou poderes da Suprema Corte.

Mais recentemente, seu parlamento aprovou um conjunto de leis que controlam a mídia: um conselho de mídia novo, dirigido pelo Estado, composto inteiramente de aliados de Fidesz, agora tem o direito de impor multas de até US$ 1 milhão para um jornalismo que ele considere “desequilibrado”, seja lá o que isso signifique. O conselho também tem a tarefa de proteger a “dignidade humana”, seja lá o que isso signifique. A lei parece procurar controlar não somente a mídia húngara, mas também a mídia disponível aos húngaros na internet ou em qualquer outro lugar.

O verdadeiro problema do governo é seu desprezo irrestrito pela “elite liberal” e sua “mídia dominante”. Esse problema não é só da Hungria. Imagino que muitos políticos americanos adorariam punir jornalistas “desequilibrados” que se opusessem à “dignidade humana”. Mas Orbán deveria saber. Os instintos de querer controlar o que as pessoas devem ouvir, de monitorar o que elas escrevem – esses são instintos da velha esquerda nessa parte do mundo, não da nova direita. (Do Ex-Blog do Cesar Maia)

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Tudo bem?

Reminiscências

Lula sem censura

Retrospectiva 2010 - No tempo do 3º mandato - 25/8/2010

Do Blog do Noblat
Do alto de sua gigantesca aprovação e a essa altura convencido de que fez seu sucessor, Lula permite-se o luxo de dizer qualquer coisa que lhe venha a cabeça. Nada tem a perder. E nada perde com o que diz.

Esta tarde, por exemplo, ao sancionar a lei que amplia os poderes do Ministério da Defesa, ele disse em tom de brincadeira que poderia ter sido enviada ao Congresso "uma emendinha" à Constituição garantindo-lhe mais alguns anos no cargo.

A brincadeira traiu um sonho que ele de fato alimentou.

Antes de se decidir por Dilma, Lula sondou vários amigos sobre a hipótese do terceiro mandato consecutivo - entre eles os governadores Jaques Wagner, da Bahia, Eduardo Campos, de Pernambuco, e Paulo Hartung, do Espírito Santo. E se aborreceu com alguns deles que se opuseram à idéia.

Entre correr o risco de jogar fora parte de sua popularidade travando a batalha do terceiro mandato ou de conservá-la para eleger seu sucessor, Lula preferiu o segundo caminho. De resto, ao eleger Dilma ele poderá tentar voltar quando quiser - em 2014 ou na eleição seguinte.

Na mesma ocasião em que mencionou a "emendinha", Lula lamentou só ter comprado um avião para a presidência da República. "Eu deveria ter comprado um maior ou dois", disse.

Acostumem-se. Daqui para frente ele só tende a piorar.

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Opinião

Ganhos e perdas da era Lula

O Estado de S.Paulo - Editorial
O Brasil viveu uma longa fase de prosperidade nos dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A economia cresceu e 30 milhões de pessoas entraram no mercado de consumo, graças à elevação dos salários e aos programas de transferência de renda. Mas esse governo foi também um tempo de oportunidades perdidas. A pauta de reformas ficou paralisada. Isso explica em boa parte a permanência do País no grupo dos menos competitivos e a preocupante erosão de suas contas externas. É necessário, num balanço econômico dos dois mandatos, levar em conta esses dois lados da história.

A produção brasileira cresceu 36,8% durante o governo Lula, admitindo-se uma expansão de 7,5% em 2010. O ritmo anual médio de crescimento foi 4%, o dobro do registrado nas duas décadas anteriores.

Entre 2003 e 2010 a economia brasileira passou da 12.ª para a 8.ª posição entre as maiores do mundo, com um Produto Interno Bruto (PIB) estimado para este ano em US$ 2,02 trilhões. Mas muitos outros países cresceram velozmente nesta década, e a maior parte dos emergentes, incluídas China, Índia, Turquia, Colômbia e Polônia, expandiu-se mais do que o Brasil.

Houve uma enorme prosperidade global no período Lula, até 2008, em contraste com os anos 90, marcados por uma sucessão de grandes crises internacionais. Muitas economias aproveitaram a onda favorável dos últimos anos e avançaram. O Brasil também foi beneficiado. Se as exportações em 2010 chegarem aos US$ 198 bilhões projetados pelo Banco Central (BC), terão crescido 227,8% em oito anos.

Mas outros países também expandiram velozmente as vendas externas e a posição brasileira entre os maiores exportadores pouco tem variado. Além disso, as exportações mais dinâmicas têm sido as de produtos básicos, graças à demanda crescente da China e de outras grandes economias emergentes.

Boa parte do vigor econômico dos últimos oito anos dependeu de condições criadas entre 1994, início do Plano Real, e 2002. Este fato foi quase sempre escamoteado pelo presidente Lula, empenhado em se apresentar como inventor do Brasil. De fato, a segurança econômica foi garantida pelo tripé formado por metas de inflação, superávit primário e câmbio flexível, componentes da herança recebida de um governo mais sério e mais trabalhador. A abertura econômica dos anos 90 e a privatização de atividades típicas de mercado tornaram o País mais eficiente. A reordenação das finanças públicas, a partir da renegociação das dívidas de Estados e municípios, permitiu uma gestão fiscal mais equilibrada. A Lei de Responsabilidade Fiscal, de 2000, completou essa mudança. Além disso, o Plano Real restaurou os instrumentos de política monetária, usados com sucesso nos últimos oito anos, sempre contra os velhos padrões petistas.

Mas os ganhos de eficiência pararam, porque o governo Lula não promoveu nenhuma reforma comparável às dos anos 90. Ensaiou timidamente renovar o sistema tributário, mas desistiu. Maus impostos ainda encarecem o investimento, a produção e a exportação. A indústria continua cobrando uma política de competitividade, várias vezes prometida e nunca executada.

Só o aumento da tributação permitiu obter algum superávit primário, porque o gasto público, especialmente o de custeio, cresceu de forma ininterrupta. No segundo mandato as contas públicas entraram em deterioração e o governo, em vez de corrigir o rumo, apelou para grotescos disfarces contábeis.

Na política externa, a competência e o realismo foram substituídos pela diplomacia do espetáculo, movida por um terceiro-mundismo requentado e pela ambição pessoal do presidente. O governo desprezou oportunidades de acordos comerciais com os mercados mais desenvolvidos e deu prioridade a uma fantasiosa política Sul-Sul. Os parceiros considerados "estratégicos" - da vizinhança ou do outro lado do mundo - tiraram vantagem do Brasil e nunca lhe concederam prioridade. Só o presidente e seus gênios da estratégia parecem não ter notado esse fato. Com um cenário externo muito menos favorável, o novo governo terá de cuidar mais de reformas e menos de fantasias.

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Manchetes do dia

Quinta-feira, 30 / 12 / 2010

Folha de São Paulo
"Petrobras anuncia reserva recorde e a batiza de Lula"

Com 8,3 bilhões de barris, campo agrega o equivalente a mais da metade do petróleo que o país tinha

A Petrobrás anunciou que a área de Tupi, descoberta do pré-sal que mudou os rumos da exploração de petróleo no país, tem 6,5 bilhões de barris de óleo e gás para exploração comercial. Somando a área anexa de Iracema, as reservas chegam a 8,3 bilhões de barris, mais da metade do que o Brasil possuía (14 bilhões). A Petrobras rebatizou Tupi como Lula e passará a chamar a área de campo. Segundo a estatal, após a declaração de comercialidade, campos no mar ganham nome de espécie marinha. O presidente Lula agradeceu pela homenagem, mas disse: “Não é meu nome, é o nome de um crustáceo” (na verdade, a lula é molusco). Lula se antecipou a Dilma Rousseff e anunciou que José Sérgio Gabrielli ficará na chefia da Petrobrás.

O Estado de São Paulo
"BNDES libera R$ 6,1 bi para Angra 3"

Financiamento equivale à metade do que o banco liberou entre janeiro e novembro para todos os projetos de energia elétrica

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) concedeu financiamento de R$ 6,1 bilhões à Eletronuclear para a construção da usina nuclear de Angra 3, no litoral sul fluminense. O montante corresponde a 58,6% do investimento do total do projeto. Localizada em Angra dos Reis, onde estão em operação as duas outras usinas nucleares, a obra já foi iniciada e deve ser concluída em 2016. O financiamento equivale à metade dos R$ 12,1 bilhões que o banco liberou entre janeiro e novembro para projetos de energia elétrica e corresponde à parte do financiamento em moeda nacional. A Eletronuclear ainda faz uma concorrência para o financiamento de 900 milhões de euros, valor correspondente à compra de equipamentos no exterior. Segundo fontes da estatal a tendência é que um consórcio francês fique com o contrato, uma vez que os equipamentos da usina são franceses.

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quarta-feira, dezembro 29, 2010

Mundo

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Vida dura

Sidney Borges
O que fazer? E mais, como fazer? Deve estar passando pelas cabeças dos policiais que contemplam a estátua viva. Enquanto elaboram um plano, falam no radio:
- O elemento, digo a elemento, está desnuda apresentando risco à integridade moral da sociedade. Posso usar o plano 21?
- Não, choque de jeito nenhum, nem gás. Aguarde reforços, a SWAT está a caminho, câmbio.
- Câmbio. Positivo. Mensagem copiada.
- Aqui do lado tem um hidrante, posso jogar água?
- Espere a SWAT, estão levando um padre, um pai de santo, uma astróloga e um psiquiatra. Se não funcionar use o hidrante.
- Positivo...

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Opinião

O ajuste chinês e o Brasil

O Estado de S.Paulo - Editorial
O governo da China, principal destino das exportações brasileiras, decidiu frear o crescimento econômico para conter a alta do custo de vida. Se o plano der certo, a inflação dos alimentos e de outros produtos básicos poderá arrefecer em 2011 no mercado internacional. Isso contribuirá para a contenção dos preços também no Brasil, facilitando o trabalho do novo governo. Mas em contrapartida prejudicará a receita comercial brasileira e tornará mais complicado o ajuste das contas externas. Economistas do setor financeiro e de consultorias independentes projetam para o próximo ano um déficit em conta corrente de US$ 69 bilhões, segundo a pesquisa Focus do Banco Central (BC). A deterioração do balanço de pagamentos só não tem sido maior graças às boas cotações das commodities.

As autoridades chinesas vêm apertando a política monetária há vários meses para frear a inflação. Não tiveram sucesso até a semana passada. Em novembro os preços ao consumidor foram 5,1% mais altos do que um ano antes, segundo os dados oficiais. Foi a maior variação observada em 28 meses. O aumento acumulado em 12 meses havia chegado a 3,6%, em setembro, e 4,4%, em outubro. As maiores altas têm ocorrido nos preços dos alimentos e no custo da habitação e por isso as famílias de baixa renda são as mais sacrificadas.

O mais novo lance da política anti-inflacionária ocorreu no dia 25, quando o Banco do Povo, o BC chinês, aumentou os juros de depósito para 2,75% e a taxa referencial de empréstimos para 5,81%, com perspectiva de elevação para 6,56% no fim de 2011. Nos dois casos o ajuste foi de 0,25 ponto porcentual. O novo aumento dos juros foi o segundo em dois meses. As taxas haviam caído em 2008, quando o governo tomou as primeiras medidas para combater os efeitos da crise internacional.

Segundo pesquisa recente do BC chinês, os consumidores estão mais preocupados com a inflação do que em qualquer outro momento dos últimos dez anos. Com a nova alta de juros - depois de ações mais suaves, como a elevação dos depósitos compulsórios -, as autoridades tentam influir no humor dos consumidores e dos demais agentes. "A expectativa de inflação é mais ameaçadora que a própria inflação", disse o primeiro-ministro Wen Jiabao.

Há mais de um ano especialistas têm apontado a formação de bolhas no mercado imobiliário e sinais de desajuste nos preços de outros ativos, mas o governo demorou a tomar medidas severas para afastar o perigo. A alta de preços dos alimentos acelerou-se neste ano e deu um forte impulso no índice de inflação.

Autoridades chinesas têm responsabilizado o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) pelo aumento dos preços internacionais. Segundo uma publicação chinesa, o ministro do Comércio, Chen Deming, chamou a atenção recentemente para o risco da inflação importada. Segundo ele, a oferta de dólares cresce de forma descontrolada no mercado internacional e isso contribuiu para o aumento de cotações das commodities.

A referência à inundação de dólares é bem fundada. Sobra dinheiro no mercado internacional, os juros no mundo rico são muito baixos. Isso favorece a especulação com os produtos agrícolas e reforça o efeito das quebras de safras em vários países. Mas a política monetária chinesa também foi muito frouxa por muitos anos, como observou o editor-chefe da publicação China Affairs, Wu Fan. Entre 2000 e 2009 o PIB medido em dólares cresceu cerca de 285%, enquanto a moeda em circulação aumentou cerca de 350%.

O governo chinês deve reduzir a meta anual de crescimento econômico para 7% nos próximos cinco anos. Nos últimos cinco a meta oficial era de 7,5%, mas a expansão média até o ano passado foi de 9,8%. Esse crescimento, o maior do mundo, favoreceu os exportadores de commodities. Neste ano, até o mês passado, o Brasil vendeu para a China mercadorias no valor de US$ 28,2 bilhões, 15,6% da receita de exportações. Sem o mercado chinês e sem a inflação dos produtos básicos, o desempenho comercial do País teria sido muito pior, por causa da valorização cambial e do baixo crescimento dos mercados mais desenvolvidos.

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Manchetes do dia

Quarta-feira, 29 / 12 / 2010

Folha de São Paulo
"Governo quer atrair teles a parceria na banda larga"

Para que Telebrás divida comando, novo ministro quer preço ‘razoável’ para serviço de ‘boa qualidade’

O futuro ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, disse que o governo proporá às operadoras de telecomunicações que dividam com a Telebrás o comando do PNBL (Plano Nacional de Banda Larga), relatam Valdo Cruz e Julio Wiziack. Para isso, as operadoras terão de apresentar proposta com preço “razoável” e serviço de “boa qualidade”. Bernardo se reuniu com executivos das teles, que se comprometeram a retirar ações questionando a forma de atuação da Telebrás. Ontem, Bernardo tratou do assunto com a presidente eleita, Dilma Rousseff. Segundo ele, caso as teles apresentem ao governo uma proposta convincente, a ideia é manter a Telebrás operando em parceria com o setor, sem exclusividade. O PNBL prevê a cobertura de 68% dos domicílios com internet até 2014. O governo havia anunciado R$ 8,9 bilhões para o setor. Com a parceria,”poderemos reduzir os investimentos nessa área e aplicar em outras”, disse Bernardo.

O Estado de São Paulo
"Superávit cai e governo deve recorrer a manobra"

Mantega fala em excluir investimentos do PAC do cálculo, depois de garantir cumprimento de metas

O superávit primário (economia para abater a dívida pública) do governo federal caiu 86% em novembro na comparação com outubro. O resultado levou integrantes da equipe econômica a jogarem a toalha quanto ao cumprimento, sm artifícios contábeis, da meta fiscal da União, de Estados e municípios, que é economizar 3,1% do Produto Interno Bruto. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, admitiu pela primeira vez a possibilidade de descontar investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do cálculo do superávit. “Estamos trabalhando para o governo cumprir a meta cheia, mas há dificuldades para Estados e municípios. A União vai cumprir os 2,15% (objetivo definido para o governo central), mas não sei se serão atingidos os 3,1%.” Até a semana passada, Mantega garantia que a meta cheia seria alcançada por todas as esferas de governo.

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terça-feira, dezembro 28, 2010

Inseto

Política

Coisas públicas

Do blog de Daniel Piza
Uma das coisas curiosas nesses oito anos de governo Lula foi a ginástica verbal que aqueles que se dizem "de esquerda", que durante duas décadas sonharam com a chegada da classe operária ao Planalto, fazem para justificar os elogios a um tipo de gestão que tanto condenavam.

Lula manteve o modelo econômico do antecessor, que antes classificava erroneamente de "neoliberal", em todos os aspectos: meta de inflação, câmbio livre, reservas financeiras, estímulos ao consumo, juros relativos entre os maiores do mundo, busca de graus melhores nas agências de risco; nenhuma privatização cancelada ou sequer investigada, e até alguns bancos estatais vendidos.

Estatizações? Poucas. Reforma agrária? Longe disso. Protecionismo maior? Não, mesmo com aumento do déficit externo. Transferência de renda? Os ricos nunca estiveram tão ricos.

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Opinião

Quanto custa o BNDES

O Estado de S.Paulo - Editorial
Embora poucos deles saibam, os contribuintes sustentam um programa de crédito subsidiado cujos critérios de concessão são misteriosos, e que lhes custa até R$ 21 bilhões por ano, 38% mais do que o governo gasta com o Bolsa-Família, que vem ajudando a mitigar a pobreza no País. Trata-se dos financiamentos do BNDES com juros subsidiados pelo Tesouro Nacional, cujo total pode chegar a R$ 296 bilhões em 2011.

É a diretoria do BNDES que, sem consultar outras instâncias do governo, decide para quem, quanto, em que condições e com que garantias emprestará o dinheiro. Suas escolhas podem não corresponder ao interesse do País - mas, quaisquer que elas sejam, o contribuinte é chamado a pagar sua parte.

O cálculo do valor pago pelos contribuintes foi feito pelo pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Mansueto Almeida. De 2008 a 2010, o BNDES recebeu R$ 236 bilhões em repasses do Tesouro para financiar investimentos de empresas privadas e, assim, combater os efeitos da crise mundial sobre a economia brasileira. Se se confirmar a informação de que, em 2011, o banco terá mais R$ 60 bilhões, sua disponibilidade será de quase R$ 300 bilhões.

Para captar recursos no mercado, o Tesouro paga juros de 10,75% (a taxa Selic) a 12,5% ao ano (a remuneração da NTN-F, título prefixado de longo prazo), mas o BNDES cobra, pelos empréstimos concedidos, 6% ao ano, que é a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP). "Se o Tesouro fosse uma empresa, acionistas e credores estariam olhando com atenção esse descasamento entre os juros pagos e os recebidos", advertiu o economista Mário Garcia, professor da PUC-RJ, em entrevista à repórter do Estado Raquel Landim.

Não sendo o Tesouro uma empresa, cabe ao contribuinte fiscalizar o que se faz com o dinheiro que ele recolhe aos cofres públicos. Nas contas de Mansueto Almeida, o subsídio anual varia de R$ 11,6 bilhões a R$ 15,9 bilhões, dependendo do custo da captação do Tesouro (Selic ou NTN-F). Adicionando-se o custo de R$ 5 bilhões do Programa de Sustentação de Investimentos, para o financiamento de máquinas, os subsídios totais variam de R$ 16,6 bilhões a R$ 20,9 bilhões. Cada ponto porcentual de aumento da Selic faz o subsídio crescer R$ 2,5 bilhões.

Mas não é só por causa do alto custo dos subsídios que a política de financiamentos e de investimentos do BNDES exige maiores esclarecimentos públicos por parte de seus diretores. É também pelas escolhas que a direção do banco tem feito. Alguns de seus diretores defendem a tese de que é necessário criar empresas brasileiras em condições de disputar espaços e consolidar sua presença no mercado mundial. Seriam o que eles chamam de "campeões nacionais". Mas são eles mesmos, os diretores do BNDES, que escolhem os futuros "campeões".

Nos últimos tempos, empresas do setor de frigoríficos foram fartamente beneficiadas com financiamentos subsidiados do BNDES, até mesmo para adquirir empresas no exterior, garantindo empregos em outros países, em detrimento do emprego do trabalhador brasileiro.

Agora, o banco amplia sua atuação no setor de papel e celulose, por meio de financiamentos e de participação no capital da empresa financiada. O anúncio do financiamento de R$ 2,7 bilhões para a Suzano Papel e Celulose, uma operação perfeitamente justificada pelo porte e pelo programa de expansão da empresa, veio acompanhado, porém, da informação de que o banco estatal, por meio de seu braço de investimentos BNDESPar, terá poder de veto em algumas decisões da companhia privada. O BNDES já é sócio da Fibria, empresa líder na produção de celulose no País, e analisa um empréstimo de R$ 3 bilhões para o projeto de celulose da Eldorado, empresa da família que controla o frigorífico JBS, que já recebeu R$ 8 bilhões do banco.

Por que a concentração das operações em alguns setores e, sobretudo, em algumas empresas, quando há milhares de pequenas e médias empresas carentes de financiamentos a custos toleráveis para ampliar suas operações e gerar empregos?

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Manchetes do dia

Terça-feira, 28 / 12 / 2010

Folha de São Paulo
"Planalto pulveriza sua propaganda em 8.094 veículos"

Nos oito anos da gestão petista, o número de contemplados com verbas subiu 1.522%; gasto foi de R$ 2,3 bilhões por ano

Em oito anos de mandato, o presidente Lula elevou de 499 para 8.094 o número de órgãos de comunicação que recebem verbas publicitárias do governo federal. A alta, de 1.522%, beneficiou veículos espalhados por 2.733 municípios; em 2003, eram 182 cidades. Os dados incluem jornais, revistas, rádios, TVs e “outros”, categoria que inclui sites e blogs e saltou de 11 para 2.512 veículos no mesmo período. Por ano, o petista gastou R$ 2,310 bilhões com propaganda, média semelhante à do tucano Fernando Henrique Cardoso. Lula, que pulverizou sua verba publicitária por mais veículos, avançou na transparência em relação à gestão FHC – a estatística não existia até 2003. Ainda assim, não se sabe quais veículos recebem verbas de publicidade estatal nem quanto cada um ganha.

O Estado de São Paulo
"Lula muda discurso e afirma que Dilma será sua candidata em 2014"

Após entrevista polêmica, petista culpa oposição por antecipar debate sucessório

A quatro dias do fim do mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentou ontem desfazer o mal-estar causado pela afirmação de que pode disputar o terceiro mandato em 2014, feita em entrevista na semana passada. Em conversa no Palácio do Planalto, disse a jornalistas que fará campanha por Dilma Rousseff. “A Dilma será minha candidata”, garantiu. Lula preferiu atribuir a antecipação do debate sucessório à oposição. “Cabe a quem está no governo governar e não ficar preocupado com a pauta de 2014.” Ele disse ainda que não será copiloto de Dilma. “Ficarei na torcida, na arquibancada”.

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segunda-feira, dezembro 27, 2010

China

Beijing, 1981

Ramalhete de "causos"

“Foi quando sobrou até para as bananeiras”

José Ronaldo dos Santos
Depois do texto anterior, que tratou de um exemplo de vegetarianismo primitivo entre os caiçaras, recebi um telefonema da colega Fátima me recomendando a aproveitar, já que estava na região (Esporão do Tapiá), para contar aos leitores o causo da Praia do Amor. Agradeço pela sugestão. Ei-lo:

Logo após a praia da Maria Godói fica a praia da Xandra, também conhecida como praia do Amor, que é uma denominação antiga, perdida no tempo. Vários caiçaras do entorno me contaram o causo, mas a versão que prefiro multiplicar é a que escutei do velho Sabá, da praia da Enseada.

Sabá adorava uma prosa; sabia contar e adorava escutar. Deste modo ele abordou a história da Xandra:

“Pois bem, Zezinho: a praia da Xandra você conhece; nós conhecemos. Mas a Xandra nem eu conheci. Nem mesmo o meu pai a conheceu porque ela se perde no tempo da meninice do meu avô, irmão mais velho da tia Dorcelina; gente das Toninhas, de quando ainda se vivia em escravidão. Os meus antigos moravam depois do lugar onde morou o Miguel Firme, no Saco do Saquaritá, quase chegando na Godói. Dizia ele –o meu pai – que Xandra era uma escrava, trazida ne mesma leva de tantos antigos meus, mas foi liberta porque diziam ter sido uma princesa num lugar da África conhecido como Congo. Era bonita demais; logo um caiçara a levou como companheira para viver no lugar que hoje chamamos de Xandra. Sua casa servia, ao mesmo tempo, de rancho da canoa usado no dia-a-dia. Teve mais gente que cobiçou a formosa negra. Investiram...investiram...investiram...e conseguiram! Diziam que o seu fogo era tanto devido à sustância dos frutos-do-mar e de alguns amuletos que trazia da sua raiz africana. Assim, sempre queria mais do seu pescador, além de satisfazer aqueles que a procuravam escondidamente. Até falavam que o tal pescador chegou a um tempo que não aguentava mais; o fogo da negra era muito exigente para quem já vivia alquebrado da faina no mar e também cuidava da roça. Tinha que inventar coisas para não morrer disso, chegando ao ponto de se perder no mar numa ocasião. Enquanto isso, a Xandra, na mesma intensidade, continuou dando prazer a todos que a farejavam. Até pouco tempo, distante desse tempo de amor intenso, quem passasse por lá sentia o cheiro da negra no ar, como tentação da carne. Os mais afoitos cavavam buracos nas bananeiras para se aliviarem. Quanta energia!

Também aos de pouca energia, isso há menos de vinte anos, eram instigados pelas companheiras para irem lá inalar aquele ar a fim de ganharem mais forças. Tenho até a impressão que continua fazendo efeito o tal cheiro de amor porque, quando eu tinha uma barraca no Caminho do Paru, até a temporada passada, presenciei muitos homens (idoso ou mais moço) buscando a praia do Amor. Tem gente que diz ser feitiçaria da negra, da tal Xandra do Congo. Acho que é mesmo!

Agora que pouca gente sabe disso, você, se estiver precisando, pode comprovar o causo. Só não estrague mais as coitadas das bananeiras”.

E o saudoso Sabá sempre terminava suas prosas em gostosa gargalhada, capaz de contagiar até mesmo quem não entendia direito do que se tratava.

Leitura recomendada: A arte de viver, de Epicteto.

Boa leitura!

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Coluna do Rui Grilo

Pelo 2º ano, Brasil lidera ranking de combate à fome

Rui Grilo
Apenas essa manchete seria motivo suficiente para considerar que este foi um ano muito bom. E a felicidade seria plena se não víssemos mais nenhum ser humano puxando carroça de sucata ou pedindo esmola para matar a fome.

Também seríamos mais motivos para comemorar se o nosso lixo não fosse mais levado para Tremembé, a um custo tão alto que o preço que todos nós pagamos é ver a cidade completamente abandonada. Se os nossos atletas tivessem incentivo e apoio para disputar provas em outros municípios e não precisassem se mudar daqui para continuar sua carreira.

Também nos sentimos impotentes perante um Estado que ainda não é capaz de fazer uma contagem de tempo de serviço e garantir a aposentadoria para quem merece, mas que é rápido para cobrar impostos e multas. Fica a sensação de que quando esse direito for publicado no Diário Oficial já não haverá mais tempo para desfrutá-lo.

Mas para quem viveu a tragédia de ver o governo de Jânio Quadros após a abertura proporcionada por Mario Covas, e o Governo de Luiza Erundina ter como sucessor Paulo Maluf e Pitta, nada mais pode assustar. Só para se ter idéia do que isso representou, Jânio Quadros mandou recolher e queimar as coleções de Retratos do Brasil enviadas às bibliotecas das escolas. Milhares de funcionários tiveram que responder processos e houve escolas em que todos os funcionários foram suspensos, permanecendo sem aulas durante um mês.

Saber que após Lula vamos ser governados por uma mulher que esteve à frente dos projetos mais importantes do seu governo é uma boa perspectiva para o ano que se inicia no próximo sábado.

Este ano foi um ano de muito trabalho mas também de muita satisfação. Enquanto muitos, ao envelhecerem sentem que perdem a maior parte dos amigos, continuamos a ampliar nosso círculo. E o dia é tão pequeno para todas as tarefas e planos que temos que desenvolver. É necessário deixar de lado as picuinhas para sobrar tempo para aquilo que é relevante, que vale a pena fazer e que traz muita satisfação, apesar do cansaço. Não há lugar para a insônia, porque as noites em claro são tempos que se ganham para desenvolver projetos. E a ânsia em realizá-los é tanta que não se percebe o esforço dispendido.

Para relaxar, ficam os momentos em que se observa o nascer do sol, o vôo do beija-flor e a beleza das flores que teimam em nascer todos os dias.

Rui Grilo
ragrilo@terra.com.br  

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Opinião

Mordaça na internet

O Estado de S.Paulo - Editorial
A Venezuela acaba de ingressar no que se poderia chamar G-X, o grupo de regimes autoritários ou ditaduras escancaradas que tentam censurar aquele que, por sua própria estrutura, é o mais arisco dos meios de comunicação - a internet. Nas pegadas da China, Irã e Cuba, a Assembleia Nacional venezuelana aprovou a extensão à mídia eletrônica da restritiva Lei de Responsabilidade Social em Rádio e Televisão, implantada por Hugo Chávez em 2004.

No ano seguinte, a oposição boicotou as eleições legislativas em protesto contra o rolo compressor do governo. Foi um grave equívoco. O Parlamento que se formou em seguida - e cujo mandato se encerra em 4 de janeiro próximo - é um apêndice do chavismo, com um ou outro dissidente. Essa Assembleia de cartolina foi há pouco acionada pelo caudilho para desidratar a que a sucederá. Na nova legislatura, o bloco oposicionista ocupará 65 das 165 cadeiras, o suficiente para privar o autocrata da maioria qualificada de 2/3 que lhe tem permitido dar um verniz de legitimidade às suas políticas ditatoriais.

Para neutralizar os efeitos da rejeição popular expressa nas urnas de setembro último - e que, sob um sistema eleitoral não manipulado, teria se traduzido numa bancada oposicionista bem maior -, Chávez preparou um pacote de medidas encabeçado pela outorga do poder de legislar por decreto, à revelia do Parlamento, em relação a 9 áreas genericamente definidas, como defesa, telecomunicações, economia, tributação e cooperação internacional. O período excepcional - o quarto em 11 anos de chavismo - deveria durar 12 meses. De cócoras, a Assembleia o ampliou para 18 meses, às vésperas, portanto, do início da campanha para o pleito presidencial de dezembro de 2012.

Nada menos surpreendente, portanto, que ao golpe legislativo se seguisse o amordaçamento da internet. A nova lei liberticida obriga os provedores de acesso à rede a bloquear "sem demora" mensagens que possam, por exemplo, "fazer apologia do delito", "fomentar a inquietação entre os cidadãos" e "desconhecer as autoridades legitimamente constituídas". Para se ter ideia do alcance da intimidação, até os anunciantes em sites e portais passarão a ser responsáveis pelos conteúdos que infringirem as regras destinadas, no cínico linguajar dos escribas chavistas, a "fomentar o equilíbrio democrático entre os deveres, direitos e interesses" de provedores, autores e usuários da rede.

As penas para quem não se prestar ao trabalho sujo determinado na lei vão desde multas (de até 10% do faturamento bruto no ano anterior) à cassação do meio, passando pela suspensão do serviço por 72 horas. Contra mais esse golpe da "Revolução Bolivariana" para apressar o advento do "socialismo do século 21", no léxico da ditadura em avançado estágio de construção na Venezuela, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA emitiu um comunicado que considera a iniciativa um atentado "sem precedentes" à liberdade de expressão na internet.

A proposta aprovada, diz a nota, "penaliza os intermediários por manifestações de terceiros, por meio de normas ambíguas, sob pressupostos que a lei não define e sem que existam garantias do devido processo". É rigorosamente isso que fazem os regimes despóticos de todas as latitudes. O que eles não podem fazer é controlar a internet com a mesma brutal simplicidade com que apreendem um jornal ou revista ou encarceram jornalistas. Não que não seja possível cercear o tráfego na rede. Mas isso requer um aparato repressivo operando em tempo integral e com razoável grau de sofisticação tecnológica.

Na Venezuela, é certo que a vigilância sobre os conteúdos considerados hostis ao chavismo - capazes de "fomentar a inquietação entre os cidadãos" - será exercida sob a tutela dos agentes cedidos pelo ditador cubano Raúl Castro ao seu fraternal seguidor de Caracas. Esse é um aspecto do drama do vizinho país que não pode ser ignorado: quanto maior o garroteamento da sociedade e da economia nacional, inspirado por Havana, maior a presença castrista no Estado venezuelano.

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Manchetes do dia

Segunda-feira, 27 / 12 / 2010

Folha de São Paulo
"Nova ministra diz que mulher não é obrigada a ter filho"

Futura secretária da Mulher do governo Dilma afirma que essa é sua visão e que cabe ao Congresso definir políticas públicas

A futura ministra da Secretaria de Políticas para as mulheres, Iriny Lopes, 54, defendeu em entrevista a Johanna Nublat o respeito à decisão das mulheres sobre aborto. “Não vejo como obrigar alguém a ter um filho que ela não se sente em condições de ter.” Ela frisa que é posição pessoal e diz que cabe ao Congresso decidir sobre políticas públicas. O aborto foi um dos temas centrais da campanha presidencial. A então candidata Dilma Rousseff, que defendera o direito de escolha pela mulher, adotou posição mais cautelosa para agradar a católicos e evangélicos. A nova ministra é militante dos direitos da mulher e defendeu a descriminalização do aborto no 3º Congresso do PT, três anos atrás. Para Lopes, o governo precisa cumprir a legislação, que prevê o aborto em caso de risco à saúde: “É o princípio que vai vigorar no próximo governo. É garantir atendimento a todas as mulheres que procurem a rede pública de saúde para casos relativos a essa gravidez”. A prioridade da pasta, de acordo com ela, será o combate à miséria.

O Estado de São Paulo
"Governo admite que fronteiras do País estão vulneráveis"

Ministério da Integração Nacional propõe 34 medidas para combater contrabando e narcotráfico

Um estudo do próprio governo alerta para a vulnerabilidade das fronteiras do Brasil ao contrabando e ao narcotráfico e expõe a carência de políticas públicas para a região, informa o repórter Marcelo de Moraes. O trabalho, coordenado pelo Ministério da Integração Nacional, propõe a adoção de 34 medidas. As propostas incluem desde os pedidos de reforço de efetivo policial e de capacitação de agentes, fiscais e outros profissionais para atuar em ações especiais até a criação de gratificações especiais para incentivar a ocupação dos postos de trabalho. A faixa de fronteira abrange 588 cidades, espalhadas por 11 Estados, envolvendo cerca de 10 milhões de habitantes.

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domingo, dezembro 26, 2010

China

Guangxi, 1988

Coluna do Mirisola

A parada gay e a marcha evangélica

“Sempre estive do lado das minorias, até que elas viravam maioria, e me acusavam de estar do outro lado. Sempre assim. Logo eu, o defensor das empregadinhas e das mulatas, fui acusado de racista”

Marcelo Mirisola*
Algumas crônicas publicadas aqui no Congresso em Foco me deram subsídios para escrever Charque, meu novo romance que será publicado pela editora Barcarolla em 2011.

Os mais ardorosos castos e os depravados mais ululantes decerto devem ter na lembrança a aproximação que fiz entre a parada gay e a marcha evangélica. Nem precisaria dizer, mas o que segue é o que eu penso, só que agora em forma de ficção. Virou ficção, virou Charque:

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Um trecho, capítulo 18:

(...) porque perdi a aventura e aquilo que Ednardo, Amelinha & Belchior chamariam de sal da vida. Fui me esvaziando, e isso aos poucos se refletiu na frequência da minha quitinete de marfim, na vida das pessoas que trocaram os paralelepípedos pela purpurina e o sangue derramado por k-suco light sabor uva.

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Uma massa colorida descia a Rua da Consolação, mais de 4 milhões de pessoas, incluindo donas de casa, padres pedófilos e escoteiros, negros e albinos, índios e canibais, mulheres & poodles & focas amestradas e – pasme! – bichas!

Todos eles escorrendo feito uma geléia colorida desde a Brigadeiro Luis Antonio até chegar na Igreja da Consolação, bem na frente da minha quitinete. Segundo estimativas da PM, eram 4 milhões de pessoas devidamente vigiadas por 2 mil homens, sendo que – segundo estimativas do organizadores da parada gay – 10% desse efetivo era composto de enrustidos que trocariam a farda por micro-tubinhos e alargariam as estimativas da PM e os seus respectivos esfíncteres na parada do próximo ano. Eis o quadro.

Porque tinha de tudo, para todos os gostos e modulações, inclusive uma espécie em extinção, a bicha louca de tempos idos. Nisso, uma melindrosa irrompeu no terraço da quitinete de um passado distante e improvável, metade desse ectoplasma era igualzinho ao Luis Fernando, meu primo, vindo diretamente de 1980, e a outra metade Salomé.

Luis Fernando, mais conhecido como Cu de Veludo, provavelmente havia se transformado numa bicha louca e velha. Porém somente 1/4 dessa metade Salomé e o outro quarto incorporaram na quitinete em forma de cu de veludo (versão anos oitenta). Os outros 2/4 do fantasma escorriam lá embaixo, junto à realidade do aqui e agora da massa colorida.

O viadinho sofreu muito no colégio, depois de todo esse tempo, ele, já um tiozinho chegado nos 40, devia – pensei – estar lá na parada junto às serpentes albinas e transgênicas, decerto engatado na trolha de algum crioulo, e se dando bem – para os parâmetros dele, sim, mesmo fantasma, muitíssimo bem.

Impressionante a roda viva, e a força dos trocadilhos. Vejam só. Apesar de tudo, e depois de todos esses anos, Luis Fernando finalmente poderia dar o cu que – segundo minhas estimativas – já não era mais aquele veludo dos anos oitenta, sossegado.

Quando o 1/4 Salomé interrompe meus pensamentos e assopra na minha nuca: “quem é enrabado por último é enrabado melhor”.

Ora, o que a melindrosa queria dizer com isso? A geléia colorida se aproximava da Igreja da Consolação; que papo era aquele? Pensei em chamar o gen. Custer ou até o coronel Erasmo Dias, tanto fazia, “alguém tem que tomar uma providência” – ouvia o velho Pascoal, meu avô que há dez anos sucumbira a um câncer de próstata pedir “providências!, providências!”. Enquanto isso, os sioux avançavam... Tínhamos que proteger o Forte Apache! A retaguarda! Cadê o Vigilante Rodoviário? A resposta veio em forma de Ronald Reagan dançando mambo com uma penca de bananas sobre a cabeça. Até você, Reagan? Maldito íncubo traidor!; onde estava o Rin Tin Tin? Amaral Neto, aonde? Só me restava pedir o auxilio da Sétima Cavalaria: os sioux do Village People invadiriam nosso forte apache, cadê você John Wayne?

E a família, a tradição e a propriedade?

– Olha o John Wayne lá, querido.

– Onde?

– Ali – apontou Salomé: – beijando o Batman na boca.

****

Fernandinho Cu de Veludo, lindinho, lindinho perdido nos 80s. Também conhecido como Boy George de Pirituba. No intervalo das aulas, lembro, eu era o único cara que conversava com ele na lanchonete. Os animais que estudavam comigo até me tiravam de fanchona. Só porque eu ia conversar com o cara. Pela memória de Jece Valadão, ela era meu primo! Ou prima, sei lá. Sempre estive do lado das minorias, até que elas viravam maioria, e me acusavam de estar do outro lado. Sempre assim. Logo eu, o defensor das empregadinhas e das mulatas, fui acusado de racista. Logo eu, que sempre respeitei o rabo de veludo do Luis Fernando, me acusaram de homofóbico; pensava nisso tudo vendo aquela multidão de 4 milhões de pessoas em ação (quer dizer: mais ou menos 2 milhões em ação, na ativa, e a outra metade na passiva, incluindo, não necessariamente nessa ordem, os padres e os poodles); pra frente Brasil, salve a seleção e salvem os cercadinhos: tudo sob controle e organizado; e eu lá, do alto da quitinete de marfim, me sentindo ultrapassado porque não era viado nem era o negro que enrabava o ex-cu de veludo do Luis Fernando, indagava de mim para mim mesmo: de que merda me serviu o livre arbítrio? E se eu não quiser ser viado?

– Quem tem livre arbítrio é urubu que nasce branco – diria o Furio Lonza (mas essa é outra história...).

Enfim, não sei como, mas praticamente esmagado pelas lembranças e assombrações dos anos oitenta, e quase surdo com o barulho do bate-estaca dos carros de som e da multidão de viados que iria se dispersar na frente da Igreja da Consolação, eu ainda consegui associar o livre arbítrio do urubu do Furio com as palavras de Bakunin la desordre c’est l’ordre moins le pouvoir *; e, a partir daí, fiz umas contas modestas e cheguei à seguinte conclusão:

Um por cento dessa viadada que “enlouquecia” na frente da Igreja da Consolação seria mais do que o suficiente para fazer uma tempestade em Brasília. Imaginei 30 mil drag queens realizando a última etapa da arquitetura de Niemeyer, varrendo aquela merda do mapa.

* A desordem é a ordem, menos o poder

****

Um dia antes, no Campo de Marte, outros 3 ou 4 milhões – segundo estimativas da PM – de neo-evangélicos (e enrustidos) em transe se reuniriam na Marcha para Jesus. Ou seja, outra multidão, igualmente organizada e pacífica, atrás de uma mentira brega contada aos guinchos e latidos. O diabo, nos 00, não era mais aquele que trazia o épico e o deserto consigo, conhecem essa história?

Numa sessão de exorcismo, no momento em que o Rituale Romanum previa a interrogação do demônio à pergunta sobre qual era seu nome, o até então “indigitado” afirmou chamar-se Sahaar e provir do deserto. O exorcista o mandou de volta para o lugar de onde veio. Ao que o demônio retrucou prontamente: “Eu carrego o deserto”. Além da retórica, sentiram a responsabilidade e a contundência poética dessa resposta: “Eu carrego o deserto”?

Voltando. Do alto da minha quitinete de marfim, cheguei a outra conclusão, um tanto óbvia. O nome do demônio – cazzo! – sempre foi legião. São exércitos. Não só de pastores. Uma legião de sertanejos, de Ivetes para jogar as mãozinhas para o alto e rebater água benta com axé e Faustão em domingos enfadonhos e eternos. Num dia, o pé quebrado está lá na parada dos viados, no outro na parada dos neo-evangélicos. Se antes ele carregava o deserto, hoje carrega o equipamento de som da banda Calypso. Brega, chapeludo, sertanejo ou disfarçado de drag queen.

E o pior de tudo, disciplinado. Eu pensava: 4 milhões de viados + 4 milhões de neo-evangélicos (segundo estimativas da PM...) = Nenhum cadáver. Nenhuma agência de banco depredada. Como é que pode?

O que me incomodava – nada mudou, as coisas somente iriam piorar – era a retórica infantil. De um lado, o tatibitate teológico. Do outro, o politicamente correto. Uma simplicidade e uma truculência que – para dizer o mínimo – metiam/metem medo e prometiam/prometem um futuro sombrio ou colorido, dependendo do ponto de vista.

No Campo de Marte, um espetáculo de puro horror e cafonice. Muito triste ver aquela gente travada e sofrida oferecendo-se à “glorificação do Senhor Jesus”. As tias de cabelos compridos e ensebados, vestidas com as burcas que compraram na C&A, ofereciam suas almas ensebadas para um acuado “Senhor Jesus”, ele mesmo, há dois mil e dez anos crucificado para salvar os homens e agora refém da histeria horripilante do povo de Deus. Ao contrário de uma celebração no candomblé – fiz meus cálculos –, onde o humano e o sobrenatural se entrelaçam numa mistura de lubricidade e alegria, faltava – principalmente – beleza pra’queles jagunços entregarem suas alminhas, tanto fazia se iriam entregá-las pro senhor capeta ou pro “senhor Jesus”.

Além da feiúra, faltava tesão, faltava calcinha vermelha. Exatamente aquilo que sobraria ou seria desperdiçado pela bicharada um dia depois, na Av. Paulista. Ambos, o bem e o mal (?) nos seus respectivos escaninhos, e sob controle.

****
Tenham todos um feliz Natal e um ótimo 2011. Tô cansado, e entro de férias. Pretendo torrar o adiantamento milionário que recebi da editora Barcarolla em Las Vegas. Volto somente no final de janeiro.

Abraços,

MM

* Considerado uma das grandes revelações da literatura brasileira dos anos 1990, formou-se em Direito, mas jamais exerceu a profissão. É conhecido pelo estilo inovador e pela ousadia, e em muitos casos virulência, com que se insurge contra o status quo e as panelinhas do mundo literário. É autor de Proibidão (Editora Demônio Negro), O herói devolvido, Bangalô e O azul do filho morto (os três pela Editora 34) e Joana a contragosto (Record), entre outros.

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Vida



Idade da razão

Sidney Borges
Maurice Chevalier respondeu assim quando lhe pediram para fazer considerações sobre sua idade avançada. "A velhice não é tão ruim quando você considera as alternativas: "Enrijecimento das articulações, enfraquecimento dos músculos, visão fraca, turvação da memória e o desprezo do mundo moderno para o velho".

De fato, não é agradável perceber que a vida caminha para o desfecho que todos temem, embora alguns finjam que não. O momento não é para discutir a escuridão, vamos falar do crepúsculo cuja beleza é insofismável.

No futuro a humanidade vai ter a vida prolongada, quem sabe nossos descendentes fiquem na Terra e nas colônias interplanetárias por duzentos ou trezentos anos antes de esticar as canelas. Ou talvez nunca estiquem, a vida será eterna, sempre com a aparência dos 27.

Vai ser uma época boa para viver. Pena que tenhamos chegado antes, ainda que no tempo dos antibióticos que nos pouparam das infecções primárias que matavam gente do povo e reis, sem distinção.

Mas antes desse radiante futuro chegar envelhecemos e os cabelos caem, as orelhas crescem, o nariz fica batatudo, e os músculos ciliares endurecem, impedindo a acomodação do cristalino e prejudicando a visão. Vejo nisso uma ironia dos deuses. O cristalino não precisava endurecer, mas endurece, coisas que precisavam não o fazem. Som de gargalhadas no Olimpo.

A situação de desprezo pela terceira idade fica evidente quando um cidadão de mais de 60 anos, que não seja celebridade, se vê envolvido em algum acontecimento fora do comum. Por exemplo, é assaltado. Ou atropelado.

No outro dia sai no jornal: "Idoso leva porrada de ladrão". Ou: "Idoso é esmagado por jamanta". Por que idoso? Se fosse o Chico Buarque de Hollanda, que tem 66, ou o Caetano Veloso, 67, diriam o cantor ou o compositor. Já o homem do povo pode ser médico, dentista, açougueiro ou merceeiro. Passou dos 60 vira idoso.

Oscar Niemeyer é o nosso guia. Tem 103 e está forte e rijo, compondo sambas e desenhando prédios. Mas precisa ter cuidado quando atravessa a rua. Outro dia quase foi atropelado, cruzou a avenida Atlântica sem olhar, apressado para comprar camisinha...

 
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