Crônica
Flores para os vivos
Marcelo Mirisola*
Depois do malfadado episódio envolvendo o ex-prefeito Celso Pitta e o sultão Naji Nahas, defendi, aqui no Congresso em Foco, o voto nulo. Somente não o pratiquei porque estou longe do meu domicílio eleitoral. Isso não significa que, embora noutro planeta e leitor de Borges, eu me abstenha de acompanhar o processo político eleitoral. Ao contrário, acompanho e levo minha torcida aos extremos da paixão cega e, às vezes, deliciosamente burra. Esse final de semana foi especialmente relevante para a política brasileira. Para o bem e para o mal.
A felicidade, em primeiro lugar. Ou a constatação temporária, vá lá, de que Deus existe e não é brega, nem é quentinho. Nem ele, nem o filho crucificado. Ocorre que, no Rio de Janeiro, Fernando Gabeira (foto) bateu o bispo Crivella e vai disputar o segundo turno com Eduardo Paes, do PMDB. O deputado do PV e, agora , sério candidato a ocupar o laptop de César Maia, começou a me ganhar quando rompeu com o governo Lula logo no início do primeiro mandato. E me ganhou definitivamente com um artigo que publicou no jornal Folha de S. Paulo, intitulado “Flores, flores para los muertos” (leia).
O texto ficou gravado em minha memória a ferro e fogo. Vejam só o que Fernando Gabeira escreveu: “Os militares batiam, davam choques e insultavam na sessão de tortura, mas vi muitos dizendo que me respeitavam porque deixei um bom emprego para combatê-los com risco de vida. Eles viam ideais no meu corpo arrasado pelo tiro e pela cadeia. O PT queria que eu abrisse mão exatamente da minha alma, e me tornasse um deputado obediente, votando tudo o que o Professor Luizinho nos mandava votar. Os militares jamais pediriam isso. Desde o princípio, disseram que eu era irrecuperável e limitaram-se à tortura de rotina. Jamais imaginei que seria grato aos torturadores por não me pedirem a alma”.
Ou seja. Muita gente “idealista” e – talvez precipitada – morreu porque pensava e agia como Fernando Gabeira. Pra quê? Eis a questão. Depois de trinta e cinco anos, a perspectiva de um bispo brega da Universal do reino do Edir tirar a vaga de um candidato como Gabeira já era, por si só, um prenúncio de sombras, e desalento. Um desastre pior que o mensalão, a meu ver. Daí que eu me perguntava: como é que os eleitores da cidade do Rio de Janeiro puderam cogitar num fulano que, entre um monte de asnices moralistas e o cabelo repartido de ladinho, ainda fez uma emenda à Lei Rouanet (prestes a ser aprovada no Senado) que permite a construção, reforma de templos religiosos, além de pagamento a pastores com recursos de renúncia fiscal, disputando as escassas verbas da cultura. Tá certo que a Lei Rouanet não é grande coisa. Já pagou até show da Ana Carolina. E, entre a decoração do show da Ana Carolina e as sessões de exorcismo do bispo Macedo, não existe, digamos, um abismo intransponível.
Tem muito malandro metido a benfeitor cultural fazendo o pé de meia à custa dessa lei. Isso é sabido, e as Lavignes da vida aproveitam, e fingem que está tudo bem. Não está. Mas não vamos esculhambar, caramba! Será que o dízimo que os fiéis depositam na conta desses pastores do capeta não é o bastante? Agora a turminha do Crivella quer a audiência do Silvio Santos, quer a Lei Rouanet, e o que mais? Comprar o Vaticano? Ora, dinheiro público nem para os shows da Ana Carolina e muito menos para sustentar as colunas de gesso, os néons e as respectivas breguices dessa máfia neopentecostal. Vamos acreditar que a Lei Rouanet – embora distorcida – é para financiar a cultura, e não a burrice. Sem falar nos projetos sociais dos meganhas-de-Jesus... e descontadas as baixarias patrocinadas por esses neo-evangélicos nos últimos anos: lembram as ações que a Universal promoveu contra a jornalista Elvira Lobato? O episódio do morro da Providência. Teve Nossa Senhora chutada, terreiros de candomblé invadidos. A lista, enfim, é extensa e irritante. Kaká, evasão de divisas, toalhadas em corredor de hotel, farra em Miami, etc etc.
Mas vamos deixar isso pra lá. Vale que Gabeira bateu o bispo brega, Deus existe e dessa vez não vacilou. Abriu seus braços sobre a Guanabara que me tem como inquilino. Tô feliz da vida. Meu coração é de eterno flerte e, nas duas oportunidades que o bicho pegou na Pavão-Pavãozinho, eu estava debaixo do chuveiro, pedindo exatamente por Ele. O chuveiro, aliás, é meu lugar preferido para rezar o Pai Nosso.
A nota triste fica por conta do fracasso nas urnas de Sérgio Mallandro, Kid Bengala, e Rita Cadillac. O total de votos dos três não chegou nem à metade dos votos que elegeram Netinho de Paula para a Câmara de Vereadores da cidade de São Paulo. Feita a contabilidade, não tenho mais dúvidas. Além de existir, Deus também é um grande sacana – e, o melhor de tudo, está longe de ser perfeito: perdeu bilhões de dólares com as especulações que andou fazendo em Wall Street. O final do mundo – caros leitores – está apenas começando. Eu acho que vai ser divertido.
· Só pra lembrar: Animais em extinção – meu novo livro, em todas as boas livrarias do ramo.
*Marcelo Mirisola, 42, é paulistano, autor de Proibidão (Editora Demônio Negro), O herói devolvido, Bangalô, O azul do filho morto (os três pela Editora 34), Joana a contragosto (Record), entre outros.
Marcelo Mirisola*
Depois do malfadado episódio envolvendo o ex-prefeito Celso Pitta e o sultão Naji Nahas, defendi, aqui no Congresso em Foco, o voto nulo. Somente não o pratiquei porque estou longe do meu domicílio eleitoral. Isso não significa que, embora noutro planeta e leitor de Borges, eu me abstenha de acompanhar o processo político eleitoral. Ao contrário, acompanho e levo minha torcida aos extremos da paixão cega e, às vezes, deliciosamente burra. Esse final de semana foi especialmente relevante para a política brasileira. Para o bem e para o mal.
A felicidade, em primeiro lugar. Ou a constatação temporária, vá lá, de que Deus existe e não é brega, nem é quentinho. Nem ele, nem o filho crucificado. Ocorre que, no Rio de Janeiro, Fernando Gabeira (foto) bateu o bispo Crivella e vai disputar o segundo turno com Eduardo Paes, do PMDB. O deputado do PV e, agora , sério candidato a ocupar o laptop de César Maia, começou a me ganhar quando rompeu com o governo Lula logo no início do primeiro mandato. E me ganhou definitivamente com um artigo que publicou no jornal Folha de S. Paulo, intitulado “Flores, flores para los muertos” (leia).
O texto ficou gravado em minha memória a ferro e fogo. Vejam só o que Fernando Gabeira escreveu: “Os militares batiam, davam choques e insultavam na sessão de tortura, mas vi muitos dizendo que me respeitavam porque deixei um bom emprego para combatê-los com risco de vida. Eles viam ideais no meu corpo arrasado pelo tiro e pela cadeia. O PT queria que eu abrisse mão exatamente da minha alma, e me tornasse um deputado obediente, votando tudo o que o Professor Luizinho nos mandava votar. Os militares jamais pediriam isso. Desde o princípio, disseram que eu era irrecuperável e limitaram-se à tortura de rotina. Jamais imaginei que seria grato aos torturadores por não me pedirem a alma”.
Ou seja. Muita gente “idealista” e – talvez precipitada – morreu porque pensava e agia como Fernando Gabeira. Pra quê? Eis a questão. Depois de trinta e cinco anos, a perspectiva de um bispo brega da Universal do reino do Edir tirar a vaga de um candidato como Gabeira já era, por si só, um prenúncio de sombras, e desalento. Um desastre pior que o mensalão, a meu ver. Daí que eu me perguntava: como é que os eleitores da cidade do Rio de Janeiro puderam cogitar num fulano que, entre um monte de asnices moralistas e o cabelo repartido de ladinho, ainda fez uma emenda à Lei Rouanet (prestes a ser aprovada no Senado) que permite a construção, reforma de templos religiosos, além de pagamento a pastores com recursos de renúncia fiscal, disputando as escassas verbas da cultura. Tá certo que a Lei Rouanet não é grande coisa. Já pagou até show da Ana Carolina. E, entre a decoração do show da Ana Carolina e as sessões de exorcismo do bispo Macedo, não existe, digamos, um abismo intransponível.
Tem muito malandro metido a benfeitor cultural fazendo o pé de meia à custa dessa lei. Isso é sabido, e as Lavignes da vida aproveitam, e fingem que está tudo bem. Não está. Mas não vamos esculhambar, caramba! Será que o dízimo que os fiéis depositam na conta desses pastores do capeta não é o bastante? Agora a turminha do Crivella quer a audiência do Silvio Santos, quer a Lei Rouanet, e o que mais? Comprar o Vaticano? Ora, dinheiro público nem para os shows da Ana Carolina e muito menos para sustentar as colunas de gesso, os néons e as respectivas breguices dessa máfia neopentecostal. Vamos acreditar que a Lei Rouanet – embora distorcida – é para financiar a cultura, e não a burrice. Sem falar nos projetos sociais dos meganhas-de-Jesus... e descontadas as baixarias patrocinadas por esses neo-evangélicos nos últimos anos: lembram as ações que a Universal promoveu contra a jornalista Elvira Lobato? O episódio do morro da Providência. Teve Nossa Senhora chutada, terreiros de candomblé invadidos. A lista, enfim, é extensa e irritante. Kaká, evasão de divisas, toalhadas em corredor de hotel, farra em Miami, etc etc.
Mas vamos deixar isso pra lá. Vale que Gabeira bateu o bispo brega, Deus existe e dessa vez não vacilou. Abriu seus braços sobre a Guanabara que me tem como inquilino. Tô feliz da vida. Meu coração é de eterno flerte e, nas duas oportunidades que o bicho pegou na Pavão-Pavãozinho, eu estava debaixo do chuveiro, pedindo exatamente por Ele. O chuveiro, aliás, é meu lugar preferido para rezar o Pai Nosso.
A nota triste fica por conta do fracasso nas urnas de Sérgio Mallandro, Kid Bengala, e Rita Cadillac. O total de votos dos três não chegou nem à metade dos votos que elegeram Netinho de Paula para a Câmara de Vereadores da cidade de São Paulo. Feita a contabilidade, não tenho mais dúvidas. Além de existir, Deus também é um grande sacana – e, o melhor de tudo, está longe de ser perfeito: perdeu bilhões de dólares com as especulações que andou fazendo em Wall Street. O final do mundo – caros leitores – está apenas começando. Eu acho que vai ser divertido.
· Só pra lembrar: Animais em extinção – meu novo livro, em todas as boas livrarias do ramo.
*Marcelo Mirisola, 42, é paulistano, autor de Proibidão (Editora Demônio Negro), O herói devolvido, Bangalô, O azul do filho morto (os três pela Editora 34), Joana a contragosto (Record), entre outros.
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