sábado, setembro 10, 2005

“VAI FALAR COM O CAPETA!”

Corsino Aliste Mezquita - Professor*
Abertura dos jogos da Semana da Pátria, no ginásio de esportes, “Benedito Pinho Filho”(Tubão). Como de costume a casa está lotada. Não dá para entrar. Já faz algum tempo que, o Tubão, não comporta esses eventos. É pequeno demais e o Município deve pensar em construir espaços maiores.

Estava lá para tentar curtir a arte inicial de um ser querido. Não conseguindo acesso fiquei conversando, na frente da porta principal, com colegas, em ambiente de paz e concórdia.No melhor da conversa passa um jovem de bicicleta, no meio do povo lá reunido e, com ela, rasga a camisa e arranha um de meus interlocutores. O Sr. Professor, educadamente e com bons modos, como cabe à classe, solicita mais cuidado e indica que o local é inadequado para circular com bicicletas.

Para surpresa de todos, o jovem, joga a bicicleta na calçada e vem desafiante, ameaçador, irritado, gritando: “Vai falar com o capeta!. Você não é meu pai!”. Ante os olhares fulminantes e de repúdio dos três adultos, que acompanhávamos ao Sr. Professor, retirou-se mastigando xingos.

A reação violenta, despropositada e fora de lugar do jovem alto, magro, esguio e mal encarado trouxe a minha mente uma resposta espontânea: “Meu amigo, o Sr. Professor já está falando com o capeta e não deseja ser teu pai”. Em atenção à não violência e ao inusitado da reação mantive silêncio. Olhos arregalados e surpresos com a falta de compostura, perguntamo-nos. Que é isto?. Para onde caminha nossa juventude?.A juventude está sendo educada ou deixando de ser educada?. Há notícias de comportamentos violentos, desmotivados e de gangues organizadas, no dia a dia das escolas, nas concentrações dos logradouros públicos, campos esportivos, veículos de transporte coletivo etc. Bebida e droga, supostamente, estão presentes nesse submundo.

Quais as causas? São muitas e bastante diversificadas. Não cabem nesta crônica.
A família está desintegrada e deixou de ser o espelho onde o jovem pode se mirar, receber carinho, manter diálogo, assimilar princípios, boas maneiras, respeito às pessoas e aos mais velhos, cultura cívica, tradições familiares e nome a preservar.

A sociedade está dominada por um consumismo irracional e transmite, através dos meios de comunicação, a necessidade do sucesso e que, os bons, são aqueles que tiram proveito de tudo, se locupletam e tem vantagens.

A política. Ora a política! Corrompeu-se do nível municipal ao federal, da empresa privada à pública, do vereador ao Presidente da República. Todos querem enricar com dinheiro público. Pegos com a boca na botija, as provas não são mais provas. Os milhões em contas bancárias, no exterior, caíram do céu e não são delitos. Mansões e fazendas, de quem nunca pagou imposto de renda, foram doações dos anjos.

A escola sofre as conseqüências da família desintegrada, da sociedade avarenta e da política corrupta e pouco pode fazer na “camisa de força”de pobreza, abandono e salários miseráveis de seus mestres e dirigentes. Por outro lado, autoridades, historicamente viciadas, realizam, com verbas da educação, programas esportivos, culturais, de saúde, assistência social, escola da família etc. etc. Na panacéia dos desvios de verba acaba não sobrando dinheiro para equipar as escolas, fornecer aos alunos os materiais e atendimentos necessários e ministrar educação de qualidade e voltada para o aluno.

Nesse quadro explica-se a falta de educação e a descompostura do jovem do Tubão. A sua frase pode ser profética. Teremos que falar com o capeta para resolver nossos graves problemas políticos, econômicos e sociais?.
* Ex-secretário da Educação de Ubatuba

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